Cerca de 40 moradores do Jardim Monte Cristo, na Zona Leste, denunciaram ontem que teriam sido ''usados'' pela secretaria municipal de Assistência Social, por pelo menos um ano, para atuar nos serviços de combate à dengue na região. Em troca, teriam recebido recursos do Programa Fome Zero.
A principal irregularidade seria justamente esse vínculo do recebimento de benefícios do Fome Zero à prestação do serviço, o que é contra a regulamentação do programa federal. Segundo o presidente da Associação de Moradores do bairro, Valter Martins, há dois anos cerca de 40 mulheres foram orientadas pela secretaria a fazer os trabalhos de prevenção e combate à dengue em troca do recebimento de cestas básicas fornecidas pelo Provopar. ''No ano passado, a secretaria trocou as cestas por cupons de R$ 50,00 do Programa Fome Zero'', contou. ''O recebimento dos cupons dependia da nossa frequência no trabalho: se faltássemos três vezes, perderíamos o benefício'', disse Nelza Elizabete Romanholi, moradora do Jardim Monte Cristo e ex-beneficiária.
De acordo com as normas do programa, qualquer família com renda per capita inferior a R$ 50,00, ou famílias com filhos entre 0 e 16 anos e renda per capita inferior a R$ 100,00 têm direito aos benefícios do Fome Zero. Basta se inscrever no cadastro único do Governo e esperar pela triagem. Não há necessidade de vínculo do recebimento do benefício com a prestação de qualquer tipo de serviço.
Ainda segundo Martins, os benefícios foram cortados há cerca de 15 dias, quando assistentes sociais da secretaria teriam realizado avaliações para recadastramento das famílias. Quase todas as mulheres da frente de combate à dengue perderam o auxílio. ''Algumas famílias vão receber somente por mais três meses'', contou a dona de casa Sueli Ribeiro da Silva.
O corte do benefício ainda criou outro problema para os moradores. Segundo Martins, somente três agentes de saúde fazem a fiscalização de combate à dengue nos jardins Monte Cristo e Santa Fé, que somam ao todo mais de 800 casas. ''As mulheres, que antes faziam o serviço em cerca de três horas, duas vezes por semana, agora não podem mais se dedicar ao combate da doença porque têm que procurar outras fontes de renda, já que dependiam do benefício. Os agentes, por outro lado, são poucos. Alguns moradores chegaram a ficar cerca de 10 dias sem receber a visita deles'', descreveu Martins. A região onde se localiza o bairro foi a maior afetada pela epidemia que assolou a cidade em 2003. Na ocasião, 1,5 mil dos 4,1 mil casos confirmados da doença eram originários da Zona Leste.
O diretor de saúde ambiental da secretaria de saúde, Maurício Barros, afirmou que tentaria marcar ainda ontem uma reunião com a assistência social para avaliar o problema da dengue no bairro. ''Apesar de reconhecermos a importância do trabalho comunitário, não tínhamos vínculo com o que estas mulheres faziam. A iniciativa de se oferecer cestas e benefícios para elas partiu da assistência social. Mas estamos tentando viabilizar o deslocamento de mais agentes de saúde para a região'', resumiu.

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