ASSISTÊNCIA - Nos abrigos, tentativa de superação
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quinta-feira, 08 de dezembro de 2016
Simoni Saris<br>Reportagem Local 


Movidos pela ilusão de uma melhor oportunidade de vida, muitos dos que desembarcam em Londrina têm pouca ou nenhuma qualificação, o que dificulta a inserção no mercado de trabalho. "A gente tem desde pessoas analfabetas, que frequentaram a escola por pouco tempo, até aquelas que têm o ensino fundamental completo, mas não necessariamente com condições de se inserir imediatamente no mercado de trabalho, principalmente por conta do preconceito. Já aconteceu de pessoas abrigadas serem recusadas por empregadores porque o endereço no currículo era do abrigo", comentou a coordenadora técnica do Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP), Ruth Piveta.
Esse não é o caso de Patrick Carlos Arruda, de 26 anos, recém-chegado a Londrina e instalado provisoriamente na Casa de Passagem da Associação Projeto Pão da Vida. Ele tem o ensino médio completo, mas os anos a mais de estudo adquiridos não têm facilitado o seu ingresso no mercado profissional. Patrick é de São Paulo, mas desligou-se da família aos 13 anos e nunca mais voltou para o convívio dos parentes.
Em novembro, o rapaz saiu do Rio de Janeiro após passar um ano na capital fluminense, onde foi trabalhar em um hotel que contratou funcionários extras para atender a demanda criada em razão dos Jogos Olímpicos. Passado o evento, o movimento não estava dentro do esperado e alguns profissionais foram dispensados. Patrick estava entre eles e decidiu deixar o Rio. A escolha por Londrina não foi aleatória. Cerca de cinco anos atrás ele já havia vivido aqui e, assim como agora, chegou sem ter onde ficar. "Passei dois ou três meses na Casa do Bom Samaritano. Consegui emprego. Trabalhei como garçom, balconista, assistente de operações e vendedor", conta. "Em uma loja de sapatos eu comecei como assistente de operações e em um mês fui promovido a vendedor. Sou bom nas regras", orgulha-se.
Dessa vez Patrick espera ter a mesma sorte. Nesta semana, ele já passou por três entrevistas de emprego para trabalhar em um shopping da cidade e está confiante. "Em Londrina é melhor para conseguir emprego. Aqui eu sempre me dei bem."
Nos primeiros dias na cidade, Patrick estava desalojado e ficou na rua. Dormia em postos de combustível, "onde tem mais fluxo de pessoas", e levou um susto quando achou que tivesse perdido a pasta da qual nunca se separa e onde guarda todos os seus documentos. Seu maior medo é voltar para as ruas. "Já encerrou meu prazo aqui (na Casa de Passagem) e estou tentando ficar mais um pouco. Não quero voltar para a rua. Não virei bandido, não mexo com droga, mas tenho medo de me envolver. Mas eu não desisto fácil e tenho confiança de que vou conseguir um emprego."
Fernando, que preferiu não dizer o sobrenome, tem 38 anos e também está na Casa de Passagem da APP. Ele é de Maringá (Noroeste), onde tem família, mas não quer reencontrar os parentes. Veio para Londrina há alguns anos, conseguiu trabalho e tinha um relacionamento. Mas recentemente separou-se e, sem ter onde morar, procurou o acolhimento temporário. O prazo de permanência já venceu e ele está desesperado porque não consegue vaga em um abrigo permanente. "Esses abrigos não funcionam. As vagas são para quem eles chamam de referenciados. Os referenciados são aquelas pessoas que ficam nos abrigos e não procuram trabalho. Eu, que tenho emprego, como não me encaixo nessa categoria, não consigo uma vaga", criticou.
O desespero de Fernando tem um motivo. Na Casa de Passagem ele só pode pernoitar. Nos finais de semana, quando está de folga, não tem onde ficar durante o dia. "Eu não tenho um lugar para descansar durante o dia nos finais de semana. Trabalho a semana inteira e no final de semana tenho que ficar andando. Fico na rua, nas praças."
Há alguns dias ele conseguiu emprego em um restaurante de um shopping na zona sul, mas sem dinheiro para o transporte, ele ia a pé para o trabalho do centro da cidade, onde a kombi deixa os moradores da Casa de Passagem todos os dias. Ele fez o trajeto caminhando durante três dias. No quarto, não aguentou e teve de desistir do trabalho. "Meus pés estão em carne viva de andar. Eu não aguentei o cansaço de fazer essa caminhada todos os dias. Tive que abrir mão de um trabalho formal para ficar na informalidade", relata. Atualmente, ele faz panfletagem para uma financeira de crédito. "Estou tentando sair dessa situação, mas falta organização para acolher todo mundo. É dessa maneira que Londrina trata as pessoas que chegam aqui", reclama.


