Mario CesarVende-seSílvio e Maria Ângela da Silva: casal tenta negociar casa no Olímpico há dois anos, sem sucessoDepósito de gente. Assim muitos moradores estão considerando o assentamento de sem-teto do jardim Olímpico, ou João Turquino, como é oficialmente chamado, na zona oeste de Londrina. A reclamação vem sobretudo dos próprios moradores do bairro, que chegaram lá antes da invasão, dois anos atrás. Para eles, a Prefeitura está simplesmente ‘‘jogando’’ os sem-teto no Olímpico sem antes garantir as mínimas condições de infra-estrutura, como água ou energia elétrica.
‘‘É uma loucura o que a Prefeitura está fazendo. Porque amontoar as pessoas sem antes dar estrutura?’’, questiona o comerciante Ademir Rodrigues da Silva. Ele critica a decisão da Prefeitura, que levou mais 36 famílias, da invasão do conjunto Ilda Mandarino, na zona norte de Londrina, para o assentamento do Olímpico. ‘‘Conheci garimpo em Rondônia e isso está pior do que garimpo. Não tem comparação.’’
Ademir da Silva diz que fica penalizado com a situação dos moradores do assentamento, principalmente quando chove. Ele conta que o pessoal, quando precisa sair do barraco para trabalhar, tem que proteger o pé com saco plástico para evitar a lama. A situação piorou nos últimos dois meses, quando o moledo de algumas ruas foi retirado com a promessa de pavimentação. Mas, por enquanto, o asfalto ficou só na promessa. ‘‘Depois que tiraram a pedra só aumentou o sofrimento do pessoal.’’
Mario CesarProblema socialBarracos no assentamento do bairro: sem água e luz elétrica, situação dos sem-teto é miserável
Os moradores reclamam que depois dos assentamentos a situação da região só piorou. Houve aumento da violência e o preço dos imóveis despencou. Ainda assim, quem quer vender encontra muita dificuldade, por falta de compradores. Ademir da Silva, que tem um mercado no bairro, conta que comprou o terreno de 635 metros quadrados, onde instalou o comércio, há seis anos, antes da invasão. Pagou na época R$ 6 mil. ‘‘Depois tentei vender e não peguei R$ 3 mil. Tive prejuízo e a solução foi construir’’, afirma.
Essa é também a situação do casal Sílvio Soares da Silva e Maria Ângela Marraccini da Silva. Eles moram no Olímpico com os três filhos e compraram a casa diretamente na Cohab, há quase 10 anos. Mas, depois que começaram os assentamentos, a família tentou mudar e até pendurou uma placa de ‘‘Vende-se’’ em frente à casa. ‘‘Essa placa já está aí há uns dois anos. Até vem gente ver, mas ninguém dá o que vale’’, conta Sílvio. ‘‘Já até desisti de vender. A placa está para não perder a esperança.’’
Assim como outras famílias da região, o casal também deixou de pagar as prestações junto a Cohab, que hoje estão na faixa de R$ 150. Além da dificuldade financeira, eles não acham justo continuar pagando pelo terreno da companhia, mais impostos e taxas de serviço, enquanto a Prefeitura assenta outras famílias na área ao lado com custo mínimo. Além do mais - argumentam - o bairro estaria abandonado.
De dar dóO comerciante Ademir da Silva: ‘É uma loucura. Por que amontoar as pessoas sem dar infra-estrutura?’
‘‘Desvalorizou mesmo. Já tentei vender a casa e não consegui’’, diz Elizabeth Fernandes de Souza, que mora bem em frente ao assentamento. Para ela, que está há sete anos na região, a falta de estrutura no assentamento é o principal motivo da má fama que o bairro adquiriu. ‘‘Antes era até melhor, mais sossegado. Mas eu tenho dó dessas famílias, tem muita gente boa lá. E fazer o quê? Eles têm que morar em algum lugar...’’
‘‘No centro, quando você fala que mora no jardim Olímpico, as pessoas olham diferente, estranham. Estou tentando vender a casa do meu pai há muito tempo e não consigo’’, acrescenta uma outra moradora do bairro, que não quer se identificar. ‘‘Eu até entendo que as pessoas precisam morar em algum lugar, mas lá virou despejo. A própria Polícia Militar tem medo de entrar na favela e nem o povo que está nos outros assentamentos da Cidade quer ir para o Olímpico, por causa da violência.’’
Um dos maiores problemas na região depois do assentamento, apontados por todos os moradores, foi o aumento da violência. ‘‘Aqui era um bairro normal, como outro qualquer. Depois que o pessoal veio complicou. Fui assaltado com dois meses de casado e não dá para deixar a casa sozinha que eles entram e levam o que tem dentro’’, lamenta outro morador, que não quis se identificar.. Para eles, o melhor a fazer agora é parar de levar gente para o Olímpico e dar condições mínimas para quem já está lá. ‘‘Não dá para continuar jogando gente lá como se fosse lixo.’’

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