O atraso de até oito meses no pagamento da água consumida no conjunto João Turquino (zona oeste), o assentamento do jardim Olímpico 2, fez com que a Sanepar voltasse a suspender o fornecimento em várias residências nos últimos dias. Com isso, hoje, 47 das 217 famílias que foram beneficiadas com água na porta do barraco acabaram sem os cavaletes. Os últimos cavaletes individuais foram retirados na segunda-feira. As outras 600 famílias que ocupam a área disputam 10 cavaletes comunitários que podem ser retirados hoje, se não houver acordo com a Sanepar.
A doméstica Benedita de Souza Sossai, 41 anos, está com o pagamento da água atrasado há oito meses. Ela, doméstica, e o marido, servente de pedreiro, estão desempregados há quase dois anos. A família cuida de quatro filhos menores. O mais velho está trabalhando em Curitiba. ‘‘Não temos condições de pagar. A conta é de quase um salário (a última foi de R$ 70,00). Isso é tarifa social?’’, reclama. Como a maioria dos que tiveram o cavalete retirado, Benedita religou a água e assume que continuará religando a cada corte. ‘‘As crianças não podem ir para a escola sujas. E sem estudar elas não podem ficar.’’
Morando sozinha e sem ter os R$ 10 que lhe pediram para fazer a ligação clandestina da água, Iraci de Fátima Santo Bispo, 33 anos, tem que apelar para os vizinhos. Ela está sem trabalhar há seis anos desde o nascimento das filhas gêmeas, devido a problemas de saúde decorrentes, segundo ela, de uma cirurgia mal feita. Iraci também está sem água e também sem luz. Ela conta que há dois meses está usando velas dentro do barraco. A água foi cortada depois do terceiro mês consecutivo de falta de pagamento. ‘‘Não tenho dinheiro nem para comer, como é que vou pagar água e luz?’’, lamenta. Os cinco filhos menores estão espalhados em casas de parentes enquanto ela se submete a tratamento médico. Os remédios, quando não obtidos nos postos de saúde, são pedidos em programas de rádio. ‘‘A gente vai vivendo como pode. Às vezes o pessoal regula água, às vezes ajuda na comida.’’
O problema da água no João Turquino começou, assim como nos outros assentamentos urbanos, praticamente junto com a chegada das primeiras famílias, cerca de dois anos atrás. Há dois meses, as negociações foram retomadas com a Sanepar, através da Câmara de Vereadores. O representante dos moradores do João Turquino, Cláudio Ribas, se encarregou de recolher os talões das então 58 famílias devedoras e entregar à Câmara. ‘‘Os vereadores disseram: ‘Vocês não são mais devedores’, porque eles assumiriam as contas atrasadas até o mês de fevereiro. A partir daí lavei minhas mãos com o povo’’, diz. ‘‘Pode cortar que nós religamos porque a rede de água eles (Sanepar) não vão arrancar.’’
Cansados da demora para solucionar o problema, os moradores ameaçam ir às últimas consequências para garantir o serviço. Eles pensam em cavar um poço. ‘‘E vou chamar a Polícia para ficar olhando fazer o serviço’’, diz Cláudio Ribas. As mulheres ameaçam ir mais longe: pretendem levar os filhos para a porta da Sanepar e pedir que a empresa arrume emprego para as famílias. ‘‘O pessoal não quer água de graça, quer serviço para pagar a água’’, reivindica o presidente da Federação das Associaçãos de Moradores de Favelas, José Ricardo da Silva. ‘‘Luz a gente fica sem, se vira com lamparina, vela. Mas água é questão de sobrevivência’’, reclama o desempregado Nilton César Rufino, 20 anos, pai de um filho menor.
O vereador Célio Guergoletto (PMDB) diz que assim que os talões das famílias inadimplentes chegaram à Câmara foram enviados à assessoria do gabinete da Prefeitura, que os repassou à Secretaria de Ação Social. Segundo ele, os talões foram devolvidos com a justificativa de que a Secretaria não tinha recursos para acertar a conta. A partir da resposta negativa, a Câmara, segundo Guergoletto devolveu os talões à Sanepar. Junto com o vereador Orlando Soares Proença (PDT), o Bonilha, Guergoletto forma a comissão definida pela Câmara para tratar do assunto.
Ontem à noite Guergoletto e Bonilha teriam uma reunião com todos os 47 moradores inadimplentes com a Sanepar. Ele pretendia chegar a um acordo com os assentados, explicando que não adiantaria acabar com a dívida atual se eles voltassem a entrar em débito com a Sanepar no mês que vem. ‘‘Eles é que vão decidir o que fazer’’, disse o vereador ontem à tarde. Sem querer revelar detalhes da negociação antes de um acordo, o vereador afirma que a comissão da Câmara está tratando do problema junto à Sanepar e que a conversa está ‘‘bem avançada’’.
Guergoletto reclama que a Sanepar não respeita a lei estadual que discorre sobre a suspensão do pagamento dos serviços básicos - água, luz e esgoto - aos trabalhadores desempregados ou que tenham renda familiar de, no máximo, um salário mínimo. ‘‘A lei não é respeitada e a tarifa é muito alta.’’
A lei, de 5 de janeiro de 1.993, estipula prazo máximo de seis meses para a concessão do benefício. Depois desse prazo, as contas serão cobradas a partir do próximo mês em seis parcelas iguais e corrigidas. O benefício pode ser revonado por mais seis meses a cada três anos. O vereador pretende buscar uma saída na Justiça para que a lei seja cumprida.

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