Assentados se unem para construir 'posto de saúde'
Silvana Leão
De Londrina
Cansados de ouvir do governo que não há dinheiro para investir em saúde e das dificuldades enfrentadas para conseguir atendimento médico, os moradores do assentamento São Jorge (zona norte de Londrina) resolveram unir forças e construir um pronto-atendimento básico de saúde. O barracão de madeira, de aproximadamente 170 metros quadrados, está sendo erguido com material doado, em terreno cedido por uma das moradoras.
Os equipamentos serão cedidos pelo Conselho Comunitário Feminino, que há alguns meses adquiriu parte dos materiais, móveis e equipamentos do Hospital Londrina, de Cambé (13 km a oeste de Londrina), na tentativa de viabilizar a sua reabertura. Como o projeto não deu certo, o Conselho firmou uma parceria com o Centro de Educação Profissional Reensino, que forma técnicos na área de enfermagem, para apoiar iniciativas como a do assentamento São Jorge.
Estamos colaborando com mais três projetos, desenvolvidos nos assentamentos João Turquino, Monte Cristo e Santa Fé. O do São Jorge está funcionando como projeto-piloto e está caminhando muito bem porque a comunidade tem demonstrado um grande interesse, explica Raquel Basseto, presidente do Conselho Feminino. Também participam do projeto a Igreja Católica, através da Paróquia Nossa Senhora de Nazaré; a Igreja Presbiteriana do Brasil e o Movimento Espírita Alan Kardec.
Os primeiros materiais, como a madeira, foram conseguidos pela comunidade do São Jorge no ano passado e já estavam começando a estragar quando surgiu a possibilidade de parceria com as entidades. Atualmente os moradores trabalham duro para conseguir cobrir e colocar piso no barracão que vai abrigar o pronto-atendimento. A expectativa é que dentro de 15 dias os moradores já estejam recebendo atendimento básico de saúde no local. Ainda falta, porém, material elétrico, hidráulico e divisórias.
Olivina Leonel (conhecida como Regina), presidente da Associação de Mulheres do assentamento, é quem representa a comunidade no projeto. Também foi ela quem abriu mão de grande parte do seu quintal para a construção do posto de saúde improvisado. Regina ressalta, porém, que a idéia não é bater de frente ou provocar o poder público. Ela explica que os moradores resolveram se unir por não visualizarem nenhuma medida oficial na área da saúde, mas isto não impede que no futuro o governo desenvolva outros projetos.
Segundo Regina, hoje em dia as famílias do São Jorge utilizam o Posto de Saúde do Conjunto Chefe Newton Guimarães, que fica a uns dois quilômetros de distância. Às vezes a gente sai daqui às três da manhã e quando chega lá já tem umas dez pessoas na frente esperando atendimento. Daí eles encaminham a gente para outros locais, até para o PAI (Pronto-Atendimento Infantil), mas o problema é que muitas vezes a gente não tem nem dinheiro para voltar para casa.
Raquel Basseto explica que é possível desenvolver ações dentro da área da saúde para educar a comunidade e prevenir ocorrências. É lógico que a iniciativa não vai resolver todos os problemas da comunidade, apenas amenizá-los. O objetivo agora é unir forças.
A unidade de pronto-atendimento vai contar com seis salas, onde serão feitos atendimentos nas áreas ginecológica, pediátrica, de clínica médica, primeiros socorros e inalação. Segundo o relações públicas da escola Reensino, Jackson de Oliveira Pinto, a instituição já tem 70 alunos prontos para estagiarem no assentamento.
A parceria entre entidades e moradores do assentamento São Jorge é vista com bons olhos pela Secretaria de Saúde do município. Na opinião de Regina Stella Spagnuolo, diretora-executiva da Secretaria, se uma fatia maior da população se dispusesse a fazer trabalhos voluntários, muitas de nossas dores seriam atenuadas. Ela lembra que, no Brasil, o voluntariado ainda tem um índice muito baixo na área médica: 4,8% contra 15% na área de informática, por exemplo.





