''Noite passada sonhei com meu sobrinho. Ele usava a mesma roupa com que brincou um dia antes de ser morto. Estava num lugar bonito, flutuando. Foi tão bom.'' Três meses após uma bala perdida ter tirado a vida de Dener, 10 anos, é somente no campo onírico que a doméstica Roseli Matias Ribeiro, 42 anos, consegue se lembrar dele com alguma serenidade. No dia-a-dia, as memórias latejam como feridas abertas, inundadas de dor e revolta.
Roseli é uma das centenas de vítimas colaterais da violência em Londrina. Uma praga social que não leva ''apenas'' vidas, mas a paz, a felicidade e até a saúde mental daqueles que perdem familiares e pessoas queridas. Pior é que essa legião de pais, filhos, irmãos, maridos, esposas, amigos de indivíduos assassinados está, em sua grande maioria, nas camadas menos favorecidas da população. Justamente aquelas onde o acesso a terapias e tratamentos psicológicos é mais difícil.
''Procurei uma psicóloga que me pediu R$ 150,00 por hora. No serviço público, era tanta burocracia que até eu conseguir uma consulta o menino já teria crescido. Quer saber? Melhor é se apegar com Deus e tocar a vida'', resigna-se a lavadeira Iolanda Miranda, 45 anos, Testemunha de Jeová. No Jardim Maracanã (Zona Oeste de Londrina) Iolanda cria os dois netos, de 5 e 9 anos, a poucas quadras da casa onde a mãe deles, Jamila Novaes Issa, 32 anos, foi executada a tiros.
A cena é vívida na cabeça das crianças: elas assistiram ao crime, na noite de 7 de junho deste ano. O mais velho ainda acionou o socorro. É para ele que a avó buscava um psicólogo. ''Eu tenho me virado com os remédios para depressão que o médico do posto me passou, converso com as irmãs (da igreja). Mas para os meninos isso é uma ferida. Ontem um deles acordou e disse que queria a mãe. Meu Deus, nem um cachorro merecia morrer daquele jeito'', desabafa Iolanda, explodindo numa crise de choro.
Forte e batalhadora como ela, Roseli também não consegue segurar o pranto ao falar dos parentes que perdeu para a guerra urbana. Foram três desde 2004. A primeira vítima, uma sobrinha de 13 anos, morreu numa briga entre gangues em um baile de hip hop. Em junho deste ano, o polidor de automóveis Maurício Vieira de Lima, 28 anos, primo da doméstica, foi baleado quando saía para pagar uma conta. A morte seria fruto da rivalidade entre gangues da Zona Oeste, hoje aplacada por um ''acordo de paz''.
A mesma rixa inútil provocaria, somente um mês depois, a morte do menino Dener Washington Cardoso Matias. Foi um rasgo profundo na emoção já combalida de Roseli. ''Eu não durmo direito à noite, perdi 20 quilos desde que ele morreu. Vejo as crianças brincando na rua e penso que podia ser o Dener. Ele era o único homem no meio de sete irmãs, uma criança linda'', conta. A mãe do menino, diz ela, ainda não acredita no que aconteceu.
Roseli gostaria de fazer terapia, mas acha que é ''artigo de luxo''. Quando a tristeza aperta, vai para o ''divã'' da vizinha. A interlocutora entende seu drama - é viúva de homem assassinado, mãe de filho deixado órfão ainda na barriga. Nesse mundo onde a luta pela sobrevivência mal dá espaço ou tempo para chorar, a doméstica encontra uma brecha para desabafar porque disso depende sua própria sanidade. ''Eu vou me abrindo porque é uma dor muito grande. Tenho medo de ficar louca.''

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