Assaltantes levam R$ 94 mil em remédios do HC
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terça-feira, 18 de maio de 2004
Andréa Lombardo<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Um assalto à farmácia do Hospital de Clínicas (HC) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), por volta das 9 horas da manhã de ontem, deixou a diretoria da instituição perplexa. Dois homens armados levaram 2.810 comprimidos do medicamento de nome comercial Glivec (mesilato de imatinib) de uso exclusivo para tratamento de pacientes crônicos de Leucemia Mielóide Crônica. O prejuízo financeiro ao HC que já trabalha com um orçamento apertado foi de aproximadamente R$ 94 mil. Cada comprimido custa cerca de R$ 33,00.
O diretor-geral do HC, Giovanni Loddo, disse que o fato surpreendeu porque o assalto aconteceu justamente quando o hospital havia acabado de receber um lote de 14.040 comprimidos. O volume que já havia sido repassado para a farmácia e que seria distribuído ontem foi todo levado. Segundo ele, os assaltantes sabiam o que queriam, pois pediram o medicamento pelo nome, e estavam preparados com três sacolas para levar uma quantidade grande do remédio. No momento do assalto, a responsável pela farmácia, Yioshie Marice Sbalqueiro, acompanhava uma professora e duas estagiárias do curso de Farmácia.
O HC tem cadastrados 66 pacientes que fazem o tratamento com o Glivec e consomem, em média, 140 comprimidos por mês. O diretor-geral garantiu que o hospital já está providenciando a reposição dos comprimidos roubados e que nenhum paciente terá prejuízo ao tratamento, que não pode ser interrompido. Dezenove pacientes já haviam retirado o medicamento na tarde de ontem.
Para Loddo, também chama a atenção o fato do medicamento ser de uso muito específico e extremamente controlado pelo Ministério da Saúde, que baixou uma portaria estabelecendo um protocolo bastante rigoroso para utilização do Glivec. O remédio está sendo testado em alguns tumores sólidos hepáticos.
O caso será investigado pela Polícia Federal (PF). Loddo informou que este foi o quarto registro do roubo desse medicamento no Brasil. Outros dois assaltos aconteceram contra hospitais do Grupo Conceição, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e um terceiro contra o hospital da Universidade de Campinas (Unicamp), em São Paulo.
Segundo a assessoria de imprensa da PF, peritos e policiais estiveram na farmácia do HC na manhã de ontem. O próximo passo será reproduzir os retratos-falados dos dois assaltantes e confrontá-los com os registros da Polícia Civil. Até a tarde de ontem, não havia definição sobre quem presidiria o inquérito. No Paraná, a PF não tinha registrado nenhuma ocorrência dessa natureza.
Em todo o País, 1,2 mil pessoas são submetidas a tratamento com o Glivec. A fornecedora exclusiva é a empresa Novartis Biociências S.A., que tem sede na Suíça. O laboratório que produz o Glivec fica na Irlanda e a distribuição no Brasil é feita pela unidade de São Paulo.
O assessor jurídico da Novartis, Nelson Mussolini, disse que a empresa vem acompanhando as investigações em Porto Alegre e São Paulo, mas até agora não há nenhuma pista. Os assaltos aconteceram no final de 2002 e 2003. A hipótese mais provável, segundo ele, é que o Glivec esteja sendo vendido no ''mercado negro de medicamentos'' ou até fora do País por causa de seu valor comercial. As pesquisas para chegar à produção do Glivec foram extremamente caras e, por isso, o medicamento tem custo tão elevado, justificou o diretor. O alto valor também está relacionado ao número de pacientes que utilizam o remédio.
A maioria dos hospitais que compram o Glivec é conveniada ao Sistema Único de Sa© úde (SUS). Justamente por causa de seu uso restrito, o medicamento não é vendido em farmácias.


