Assaltante conta como evita violência e escolhe as vítimas
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de agosto de 1998
Eledovino Bassetto Junior 
Aos 23 anos, o assaltante Tripa conta com a maior naturalidade como faz para assaltar mercadinhos, panificadoras e ônibus: Faço na boa, chego e enquadro o mercado, panificadora, o que for, só que não bato nas vítimas, porque é problema deixar lesões. Eu chego, enquadro, troco uma idéia, pego o dinheiro e saio fora. Não fico judiando de vítima. Essa aparente frieza e tranquilidade contrasta muito com a dificuldade do pastor evangélico, que tenta trazê-lo de volta ao bom caminho.
E como escolher os alvos? A gente sai dar um rolê de bicicleta, vê um mercadinho que não tenha muitas pessoas, menos vítimas, e depois entra como se fosse comprar um cigarro, mas quando ele olha a gente já puxa o revólver e enquadra, manda ficar quieto que não dá nada. E se as vítimas reagirem: Se der tempo de correr eu corro, mas se tiver que atirar, eu atiro, porque dez vezes a mãe do cara ficar chorando do que a minha, conta, com a experiência de pelo menos dois anos no crime e mais de 50 assaltos. Às vezes, as tretas são feitas com armas de brinquedo, mas isso não é um problema para o assaltante: A gente chega e diz logo que é assalto, para as vítimas ficarem com medo. Mas não é que eu seja perigoso, eu só pavoro pra eles darem o dinheiro de uma vez. Eles nem se ligam que a arma é de brinquedo.
A rotina desse assaltante não é muito diferente daquela experimentada por jovens da mesma idade, sem perspectivas de vida e tampouco motivação para deixar o crime. Eu já fui preso por causa de um 16 (artigo do Código Penal que trata sobre porte de drogas) e por um 157 (assalto à mão armada), só que nesse eu não estava na fita. Eu só faço essas fitas porque estou empenhado, estou desempregado. Eu não faço questão de roubar, assaltar é errado e até demais, porque você tá colocando em risco a vida de um trabalhador. Se o pessoal reagir, você vai ter que matar a pessoa e isso é problema, diz Tripa.
Morando num quartinho num bairro periférico da Capital, Tripa não faz segredo de sua dependência das drogas - eu uso mesmo -, mas conta a clássica história de que está deixando o vício. Eu tô ligado que faz mal e tô deixando, mas é difícil, diz ele.
A falta de certezas na vida atormentam esse jovem, que vê no crime a única alternativa de sobrevivência. Eu não sou bandido, mas sou obrigado a fazer esses assaltos, afirma, com pouca convicção. Num mês de atividade, Tripa conta que chega a faturar dinheiro suficiente para comprar um carro, mas acaba torrando tudo em drogas. Mas eu não fico com o flagrante em cima, porque senão os homens (a polícia) já vem xaropear, porque eles querem o dinheiro.


