Assaí - ''Vim de pau-de-arara, fugindo da seca, na década de 60. Vim sozinho, sem lenço nem documento, trabalhar no Japão brasileiro''. É em verso e prosa que Manoel Alves dos Santos, de 74 anos, mais conhecido como ''Mané Sapateiro'', relembra fevereiro de 1960, quando deixou Triunfo (PE) rumo a Assaí (Norte).
As promessas de trabalho rentável nas plantações de algodão, considerado o ''Ouro Branco'' na época, motivaram o deslocamento de muitos trabalhadores nordestinos, que deixaram as famílias no sertão em busca de uma vida melhor no Paraná.
''Estranhei o clima e a cultura. Chorava achando que ia morrer de frio e ao escutar Luiz Gonzaga no rádio. Só não voltei para minha terra nos primeiros dias por falta de dinheiro'', conta Mané, que hoje só cogita a ideia de voltar ao Nordeste a passeio. ''Fiz família aqui e uma profissão. Aprendi a falar japonês e a gostar da comida.''
A presença dos japoneses no município, que chegaram na década de 30, era um choque cultural para os pernambucanos, baianos e alagoanos, que vinham em grupos numerosos no chamado ''pau-de-arara''. A viagem durava cerca de 20 dias e terminava dentro das propriedades dos imigrantes japoneses, que empregavam os nordestinos.
''Viajei com uns 40 amigos. A gente dormia no chão e comia muito pouco. Era uma luta alimentada pelo sonho de melhores condições de vida. Ao chegar em Assaí, a primeira pessoa que vi foi um japonês. Nunca tinha visto nenhum. Quis voltar no dia seguinte, mas não tinha dinheiro'', conta José Alfredo da Silva, de 83 anos, o ''Tururi''.
Viúvo, Tururi diz que se acostumou com a nova vida por obrigação, mas hoje não se vê longe da terra vermelha. ''Meu amigo me animou a vir. Ele disse que as boas oportunidades estavam aqui. Era verdade. Consegui ganhar um bom dinheiro plantando algodão e café e agora posso dizer que até gosto do frio e de comida japonesa'', brinca.
Naquela época, o Distrito de Pau d'Alho do Sul era o destino de muitos destes retirantes. Um deles é José Amaral, 74 anos, que veio em 1952, na companhia dos pais. Atualmente aposentado, Amaral se recorda do trabalho braçal que exercia ao lado de muitos colegas de sertão. ''Lembro que meu pai trouxe facões na bagagem, que foram usados para derrubar o mato. Eram tempos diferentes. Me acostumei a conviver com cobra cascavel, antas, catetos e veados que surgiam da mata. Nas plantações, inúmeros trabalhadores plantavam e colhiam. Entre eles, havia muitos japoneses.''
Para matar a saudade dos costumes, Amaral conta que os nordestinos se reuniam para preparar comidas típicas e jogar conversa fora. ''Antigamente, aqui era um ninho de nordestinos, mas o engraçado era a mistura com os japoneses. Eles moravam em casas de madeira e comiam 'gohan' (arroz em japonês). Parecia que nós estávamos no Japão.''
Apesar das diferenças e da distância da terra natal, os nordestinos estavam animados com as oportunidades. Já nos primeiros meses, a fertilidade da terra proporcionou muito trabalho e consequentemente, dinheiro. Com a fartura, Amaral pode retornar a União de Palmares, em Alagoas, para buscar a esposa Maria, com quem teve 12 filhos e convive até hoje em Pau d'Alho do Sul.
Festa típica
Para homenagear a comunidade, a prefeitura realizará de 12 a 14 de agosto a VII Festa Nordestina de Assaí, com shows musicais e folclóricos, artesanatos, comidas típicas, oficina de cordel e show de mamulengo. A estimativa de público para este ano é de 7 mil pessoas.
Serviço - Mais informações no www.pmassai.com.br

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