As vítimas inocentes do descaso
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segunda-feira, 17 de junho de 2002
Luciano Augusto<BR>Reportagem Local 
Seis bebês com toxoplasmose estão sendo tratados em Londrina; o caso mais grave é de G.G.M, que corre risco de vida. Crianças são de Santa Isabel do Ivaí, onde foi registrado o maior surto da doença no mundo
Talvez o lado mais triste do surto de toxoplasmose registrado em Santa Isabel do Ivaí (92 km a oeste de Paranavaí), em dezembro do ano passado, seja a consequência para as crianças. O caso mais grave é do bebê G.G.M., de apenas 58 dias de vida, passados integralmente em leitos de hospitais. Ele está internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Pediátrica do Hospital Universitário de Londrina há 49 dias e corre risco de vida. Outros cinco recém-nascidos estão sendo tratados pelo ambulatório de moléstias infectocontagiosas do Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Londrina (UEL). O surto de toxoplasmose em Santa Isabel é considerado o maior do mundo, com pelo menos 450 pessoas contaminadas.
A avó do bebê, Maritania Alves de Arruda Maia, 40 anos, contou que ele adquiriu a doença ainda no ventre da mãe, Daiane Gomes, de apenas 20 anos. Ela descobriu que estava infectada com o protozoário causador da doença somente no sexto mês de gestação. De acordo com Maritania, a nora adquiriu a doença tomando a água contaminada do reservatório do município e chegou a fazer tratamento, mas o bebê já tinha sido infectado.
Desde o nascimento, o bebê não foi para casa nem pôde provar do leite materno. Durante um mês e meio, G.G.M. permaneceu no hospital mas seu estado de saúde era bem melhor do que o atual. Há cerca de dez dias, porém, a avó disse que ele sofreu uma parada cardíaca, teve convulsões e o seu quadro se agravou. Hoje, ele respira com a ajuda de aparelhos e se alimenta por meio de uma sonda.
Emocionada, a avó tem consciência de que a saúde do neto já foi prejudicada e, se ele conseguir sobreviver, nem os médicos sabem dizer o que pode acontecer. Só espero que ele saia vivo daqui. O que eu quero não é mais por ele, mas sim para os meus filhos, para os meus netos que ainda poderão nascer ou para os filhos dos meus amigos.
É o primeiro neto de Maritania, que teve de deixar momentaneamente de lado o trabalho de empregada doméstica para poder revezar com o resto da família no acompanhamento do tratamento do bebê. Ela pode ver o neto por apenas duas horas por dia, durante os horários de visita. A fé é a única coisa que eu a minha família temos nos apegado, afirmou.
Na cidade, segundo Maritania, quase nada mudou. Ela disse que as pessoas continuam tomando da água do reservatório sem saber ao certo os riscos que estão correndo. Quem mora na zona rural anda sempre com uma garrafinha de água. Outros, revelou, preferiram se mudar de Santa Isabel do Ivaí. A avó ainda não sabe se irá tomar alguma medida contra o município.


