Santa Isabel do Ivaí- Daiane não quer mais ter filhos. O trauma sofrido com a morte do pequeno Guilherme, com apenas oito meses de vida, deixou uma dor difícil de suportar no coração da mãe.
Aos cinco meses de gravidez, a balconista Daiane Ferreira Gomes Maia, então com 19 anos, descobriu que estava com toxoplasmose. Fez o tratamento necessário, mas já era tarde demais. A doença atingiu o bebê, que nasceu com má formação cerebral e morreu no hospital.
A tragédia da família Maia comoveu a mídia há seis anos. Vítimas de um surto de toxoplasmose que atingiu a cidade de Santa Isabel do Ivaí (92 km a oeste de Paranavaí) às vésperas do Natal de 2001, Daiane e o marido Hugo Alves Maia ainda têm medo de consumir a água distribuída pela rede municipal.
Na época, no reservatório onde a água que abastecia a cidade era captada e tratada foi encontrada uma gata, possível hospedeira do protozoário transmissor da toxoplasmose. A doença tem no felino o hospedeiro natural e nos demais animais e no homem o hospedeiro intermediário. A transmissão ocorre pelo contato com o animal ou pela ingestão de alimentos ou líquidos contaminados por fezes.
Jéssica, 5, é serelepe. Curiosa, gosta de aprender sobre tudo o que acontece ao seu redor. É o orgulho da mãe, a produtora rural Jane de Fátima Rosa, 29, que mal pode acreditar que a filha está viva e saudável.
Aos oito meses de gravidez, Jane também teve toxoplasmose. Mesmo monitorada pelos médicos, a doença foi transmitida para o bebê. Por um bom tempo Jéssica, ainda bebê, precisou tomar três medicamentos diariamente e fazer exames periódicos no Hospital Universitário de Londrina.
Fora de perigo, com um mês de vida a menina foi diagnosticada com estrabismo, decorrência de uma lesão ocular causada pela toxoplasmose. Ela enxerga muito melhor com a vista esquerda do que com a direita, comprometida pelo problema.
Jane e a mãe dela, a costureira Fátima da Rosa, 53, que também ficou de cama por dois meses, não tiveram sequelas como a pequena Jéssica, mas ainda preferem consumir água mineral a beber direto da torneira.
Vira e mexe a funcionária pública Malba Aparecida de Souza Mazzarino, 53, tem infecções na vista, decorrentes de quatro lesões oculares que a acompanham desde que adquiriu toxoplasmose, há seis anos. Ela ainda sente dores no corpo e por muito tempo viveu à base de água mineral. Hoje ela usa um filtro d'água no preparo de alimentos e para beber.
O cunhado dela, o dentista José Eustáquio Guimarães, sofre até hoje com as lesões oculares causadas pela toxoplasmose. Ele foi um dos primeiros a ser diagnosticado com a doença, mas nem assim se livrou das sequelas. Na época em que estava doente, chegou a perder três quilos e enquanto esteve sob o efeito dos remédios, mal conseguia trabalhar. Agora tem hipermetropia avançada, sem possibilidade de reversão.
As histórias retratam a realidade escondida na tranquilidade das ruas de Santa Isabel do Ivaí. Passados seis anos do primeiro diagnóstico de toxoplasmose na cidade - que culminou em 515 pessoas contaminadas, um aborto e uma morte - a população parece ter esquecido do surto que foi considerado o maior do mundo.
''Quiseram abafar e quando explodiu foi feio'', diz Daiane Maia. Segundo José Guimarães, quem falasse na doença era reprimido pelo poder público. ''No começo, as pessoas tinham que provar que estavam doentes para receber tratamento''. O sentimento de que algo poderia ter sido feito para evitar a tragédia é comum entre os moradores.
Conforme Jane Rosa, na época, o surto causou tumulto na cidade. ''A Prefeitura disponibilizava um carro da Saúde para levar cinco mães com crianças para Londrina para fazer acompanhamento, mas quase sempre a gente passava o dia fora de casa sem alimentação. Se a gente não se garantisse, ficava sem comer.''

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