As noivas do Botânico
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 26 de setembro de 2002
Ana Clara Garmendia<BR>Equipe da Folha 
Curitiba - Um véu no vento. Uma noiva atravessa afoita a rua que passa em frente ao Jardim Botânico, cartão postal da cidade. Ao lado dela, o noivo. O paletó apertado fora alugado dias antes para o casório. Aparecida tinha sonhos em vivenciar aquele momento. Passou meses contabilizando os extras para contratar um retratista que eternizasse tudo. O vestido não precisou ser alugado. Era praxe na família passar a peça de mãe para filha. Com ela não seria diferente.
Anos de namoro aguentando as bebedeiras do Armando. Filho de seu padrinho, o moreno baixo de cabeça atarracada foi seu primeiro namorado. Depois de muito amasso na cozinha e muita briga no portão, seu pai forçou o malandro a assumir. Até a igreja Armando estava frequentando para acalmar os ânimos na casa do sogro, que de tanto aprontar para a mãe de Aparecida agora estava viúvo.
Naquele momento, em frente ao Jardim Botânico, Aparecida estava em transe. Vingada. Depois de tantas lágrimas, finalmente ela passaria a ser a titular. A mulher dele. Esposa. Aquela que poderia encher a boca e dizer ''é na minha cama que ele dorme. É o pai dos meus filhos. É comigo que ele passa o Natal''. Essas palavras amargas ela herdara da mãe. Antônia criou a menina secando os olhos, de tanto chorar pelas aprontações do marido. Sempre que acontecia alguma coisa ela dizia para a filha as palavras mágicas ''pelo menos ele me assumiu. Casei e fiz fotos lindas no Jardim Botânico, minha filha. Foi o dia mais feliz da minha vida. Um dia de rainha. Você ainda vai ter o seu''.
Passados anos do momento mágico no Botânico, as tristezas de Antônia a levaram a ter um problema cardíaco grave. Com 50 anos ela estava morta. Agora a única filha estava ali vivendo seu dia de glória. O antes já não importava mais. O futuro também não. O tempo parou naquele momento, Aparecida em meio aos carros atravessava em direção ao Jardim Botânico.


