AS NEGOCIAÇÕES PASSO A PASSO
AS NEGOCIAÇÕES PASSO A PASSO
Albari RosaLuciano Cordeiro se entregando, junto com a refém Viviane PiovesanComo um jogo de pôquer, policiais e sequestradores blefaram muito durante as negociações para liberar as réfens. Desde o começo do sequestro, houve muitas ameaças e chantagens, com os ladrões colocando o revólver na cabeça das jovens e jurando-as de morte. Ou com os policiais prometendo invadir a casa, cada vez que as negociações esmoreciam.
Para evitar que os ladrões fugissem, a Polícia Militar colocou às 15h40, um camburão na saída da casa. Situado num conjunto residencial da cidade, o imóvel tinha atrás uma ribanceira e um riacho e na frente um grande muro com apenas uma passagem. Apesar de grande, a residência era cheia de janelas, o que permitia que os policiais acompanhassem a movimentação dos ladrões. As três mulheres serviam como escudos, sempre com revólveres apontados para suas cabeças.
Logo nos primeiros contatos, os ladrões pediram a presença de um advogado, da imprensa e de um representante do Ministério Público.
Tanto Susiane e Viviane contaram para a família que os ladrões as mantinham sob a mira do revólver, mas com a arma descarregada. É uma forma de ganhar a confiança dos sequestrados, explicou o delegado titular do Centro Operações Policiais Especiais, Mário Ramos.
Essa confiança foi demonstrada quando as meninas indicaram onde eles poderiam fugir. As jovens, inclusive, avisaram quando os ladrões esqueceram de colocar os revólveres em suas cabeças.
Por volta das 19 horas, um dos sequestradores levou Viviane Piovesan para cobrir com jornais os vidros do Voyage da família. Em seguida, eles ficaram ameaçando estourar as cabeças delas, se a PM não saísse do portão. Mas, neste momento, as duas polícias (Civil e Militar) já haviam cercado a casa. Ao todo, eram 170 policiais, 120 da PM (Batalhão de Choque, Comando de Operações Especiais COE e o 17º Batalhão) e 50 da Civil (Comando de Operações Policiais Especiais Cope e Grupo Tigre).
Dois sequestradores tentaram sair às 19h20, parando o Voyage na frente do camburão. Como a passagem não abriu, voltaram para casa. Às 20 horas, os policiais acionaram técnicos da Copel e Telepar, que passaram o controle da luz e telefone para fora da casa. Além disso, foram colocados holofotes ao redor da casa.
A linha telefônica da casa dos Piovesan se tornou um ramal exclusivo, onde apenas os policiais poderiam conversar com os assaltantes. No entanto, na madrugada, uma rádio rompeu o sistema de controle, conseguindo entrevistar Luciano Cordeiro ao vivo.
Para manter os bandidos sob controle, ao anoitecer, policiais do grupo de elite entraram na casa, sem serem vistos, e colocaram escutas. Apesar da oportunidade, os policiais evitaram o resgate. Apenas com 100% de segurança aos reféns, a polícia vai agir, dizia o coronel David Pancotti, do 17º Batalhão Policial.
Com as escutas, os policiais puderam saber as reações dos sequestradores. Também foram trazidas a mãe, irmã e namorada de Cordeiro. Maria da Conceição Cordeiro, mãe do sequestrador, foi usada para amolecer o filho. Ele, depois da primeira conversa, não queria falar mais com as mulheres.
Nesse momento, foram incluídos na negociação os advogados Emídio Marques, que defendia os bandidos, e o Luiz Roberto Biori, parente da família Piovesan. Foram eles, junto com os policiais, que convenceram a soltar Susiane Santos Piovesan, com a promessa de não haver uma invasão durante a noite.
Depois dessa intervenção, os assaltantes passaram a beber, consumindo um litro de vinho e outro de uísque. Embriagados, começaram a caminhar com as jovens pelo pátio da casa. Também, talvez por causa da bebida, pararam de negociar.
Para mantê-los acordados e desgastá-los, a cada 20 minutos os policiais ligavam sirenes e luzes. Durante a madrugada, os sequestradores pediram que se respeitasse o direito ao silêncio e privacidade.
No começo da manhã de ontem, a PM ameaçou invadir o local, mas recuou. Quando o dia clareou, Luciano foi para fora da casa junto com Viviane. Talvez sabendo que iria se entregar, fez um gesto sem explicações. Pegando as gaiolas que ficavam em uma edícula, ele soltou cada um dos passarinhos, depois destruiu as gaiolas. Às 9h50, o delegado do Cope, Mário Ramos, anunciou a rendição. Cinco minutos depois, todos se entregavam, permitindo que se colocassem algemas nas mãos. (I.R.)





