Às margens de um rio doente
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terça-feira, 04 de junho de 2002
Ana Paula Nascimento<br>Reportagem Local 
A água é vida. Sem água, não somos nada. Com essa definição, Maria José Gimenez Barcelão, 53 anos, explica a importância de preservar o meio ambiente. Ela e mais 12 pessoas da sua família, incluindo filhos e netos, moram em uma chácara na beira do Ribeirão Lindóia (zona oeste de Londrina) há oito anos. A família já consumiu água do ribeirão durante seis anos e no mês passado viu o Lindóia ser interditado por órgãos ambientais devido a um vazamento de óleo que acabou contaminando-o.
A demora na solução para esse acidente ecológico, somado a outros problemas ambientais ocorridos em Londrina, marcam o Dia Mundial do Ambiente (hoje) deste ano. Na opinião da promotora de Defesa do Meio Ambiente, Luciana Lepri Moreira, não há muito o que comemorar. É só observarmos a situação do Lago Igapó, dos fundos de vale, dos ribeirões Quati e Lindóia, afirmou.
O Instituto Ambiental do Paraná (IAP) ainda não tem previsão para liberação da água do Ribeirão Lindóia para banho e consumo. O vazamento foi detectado há cerca de um mês e a origem do problema ainda não foi identificada. Vinte e oito chácaras somando cerca de 140 moradores estão localizadas na beira do Lindóia. Segundo informações do geólogo Everton Luiz da Costa e Silva, da Superintendência de Recursos Hídricos e Saneamento Abiental (Suderhsa), a nascente do ribeirão fica no município de Cambé, percorrendo uma extensão aproximada de 20 quilômetros pelos municípios de Londrina e Ibiporã, onde deságua no Rio Jacutinga.
Maria José desconfiou que a saúde do ribeirão não andava bem há algum tempo. Quando começamos a beber dessa água, passamos a ter dores de cabeça constantemente, enjôos e vômitos. Com o tempo, o cheiro de óleo passou a ficar mais constante e acredito que a nossa saúde diminui por causa dessa água, conta.
Antes de qualquer coisa, precisamos localizar a fonte poluidora e ainda estamos aguardando o resultado de 28 amostras de água, explica o chefe regional do IAP, Andrew Pinheiro Neto. Segundo ele, os resultados mais recentes demonstraram que não há mais toxicidade na água, mas outros fatores estão sendo analisados e há indícios de que ela não é própria para o consumo, diz.
Enquanto isso, a população tem que se adaptar com as mudanças no seu cotidiano. Na casa do adolescente Anderson Bueno Gaino, os quatro cavalos que ficam na chácara agora bebem água tratada. A nossa despesa aumentou, mas não dá mais para eles beberam água no ribeirão, o risco de morrer é grande, disse. Ele e o irmão André costumavam brincar na água diversão que agora se tornou impossível.
Na casa da empregada doméstica Aparecida Ribeiro de Souza, a família ainda consome a água do ribeirão, que vem através de um poço. Os enjôos e dores de cabeça também são constantes. Me preocupo com isso, mas não tenho condições de pagar pela água tratada, explicou Aparecida.
O mestre-de-obras Daniel Rocha Lobo, que tinha um açude repleto de tilápias e lambaris, todos mortos na época do vazamento de óleo, disse que acha muito difícil haver uma maior conscientização ecológica: De modo geral, acho que o mundo está indiferente a isso.


