As marcas do estadista d. Geraldo
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segunda-feira, 18 de março de 2013
Widson Schwartz<br>Especial para a FOLHA 
Com a celebração do centenário de seu nascimento, hoje às 19h30 na Catedral, d. Geraldo Fernandes Bijos será lembrado, especialmente, por ter sido o mestre de obras sociais e o agente católico que fortaleceu o movimento pelo ensino superior em Londrina, cuja expansão era bloqueada sob a influência de Curitiba nos governos estaduais. E também pelas convicções que o colocaram na galeria dos "conservadores" em relação ao clero "progressista" adepto da atuação com os movimentos populares.
D. Geraldo Fernandes não foi, também, um contestador da ditadura, mesmo quando a violenta repressão sob o Ato Institucional nº 5, a partir de 1968, atingiu até padres e bispos. Em admirável sinceridade, declarava-se "conservador".
Mas, em 25 anos (1957-1982) à frente da diocese e arquidiocese, o primeiro bispo de Londrina "revelou-se um grande estadista, homem de relações públicas cuja palavra era respeitada", conclui o arcebispo atual, d. Orlando Brandes, em artigo sobre o centenário. "Ouvido e consultado por governadores, prefeitos, professores universitários" e líderes em setores diversos, d. Geraldo usava a influência "para ajudar os pobres" e "foi um baluarte na criação da UEL". Fundou um seminário e a Rádio Alvorada; a nova catedral foi construída.
No funeral de d. Geraldo, em 29 de fevereiro de 1982, o ex-governador Ney Braga contou, à FOLHA, que o conhecera padre em Curitiba. "Ele era meu diretor espiritual, meu conselheiro", reverenciou-o. "Nesses 40 anos fomos muito amigos, sempre tive conselhos dele, batizei três dos meus filhos com ele."
O arcebispo "tinha um defeito orgânico na válvula do coração" e morreu em São Paulo, uma semana após ser operado. "Imediatamente lhe foram tirados os olhos, que, ainda em vida, presenteara a um cego", relatou padre Carlos Probst, vigário-geral no período de d. Geraldo.
Uma síntese do relacionamento do arcebispo e a comunidade está no testamento espiritual, escrito por ele em 1978: "Sempre procurei unir Londrina, nunca dividir ou partir". Sem que isso impedisse uma tendência: "Amo a Igreja na pessoa de todos os meus irmãos, principalmente os mais pobres, pelos quais eu trabalhei nos arrabaldes de Curitiba e Londrina, de um modo especial." Quanto a um testamento de bens materiais, não precisaria: "Nunca tive nada, não tenho e não quero nada para mim. Para pagar débitos em banco, que sempre tive, deve estar chegando uma ajuda de "adveniat" que consegui em recente viagem à Alemanha".
Conciliador
Nascido (19/03/1913) em Contagem (MG), menino pobre que começou a trabalhar aos nove anos, quando o pai morreu, Geraldo Fernandes Bijos ingressa na Escola Apostólica dos Padres Claretianos em Belo Horizonte, progride em outros estabelecimentos e chega a Roma, onde recebe a ordenação, em 1936, e forma-se em Direito Civil e Direito Canônico.
Ao tomar posse da recém-criada diocese de Londrina, em 17 de fevereiro de 1957, o bispo d. Geraldo Fernandes tem 44 anos e a cidade, aos 57, já está com 66,5 mil habitantes, no município são 118,6 mil. Pioneiros que vieram de todo o Brasil e de muitos países, formadores de uma comunidade onde "há um desempenho de linguagem, uma altanaria de porte, um desembaraço de maneiras, uma franqueza de ideias que não se encontram, de modo tão generalizado em outros lugares". Assim o cronista Arnaldo Pedroso d'Horta conheceu Londrina nos primeiros anos 50 e, certamente, ainda a cidade que d. Geraldo Fernandes encontrou.
Tachado de capitalista simpático à UDN durante a campanha eleitoral de 1959, d. Geraldo é alvo de um panfleto escrito por Mário Romagnolli, poeta satírico e mordaz. Defendendo-se em espaço pago na primeira página da Folha de Londrina, o bispo revela-se conciliador. "É verdade que os versos são de autoria do sr. Mário Romagnolli, mas ele já se arrependeu da atitude impensada, tomada diante de informações inverídicas", pondera.
A exploração da inverdade só poderia "manchar a honra de quem escreve e não a do pobre bispo de Londrina" arremata.
"Londrina vinha gastando seus montes de dinheiro com uísque, cimento e luxos" já nos primeiros anos 50, escreveu o cronista Rubem Braga. Mas havia pobreza também. Para ajudar os pobres, o bispo conviverá com os ricos, fazendo "grandes amizades nos meios empresariais e a elas recorrendo em seus apuros financeiros", relata o historiador José Garcia Gonzales Neto ("A Diocese de Londrina e d. Geraldo Fernandes" - 2008).
As iniciativas sociais com a participação de associações de leigos seriam muitos, mas quando d. Geraldo chegou os vicentinos já construíam casas para acolher temporariamente famílias que chegavam e se viam em apuros. Entusiasmado com a liderança de Antônio Faria Netto, o bispo estabelece a "parceria" entre os vicentinos e a Congregação das Missionárias de Santo Antônio de Maria Claret (irmãs claretianas), fundada por ele e madre Leônia Mílito. Para o historiador Probst, o relatório que d. Geraldo fez em 1959 sobre a expansão das conferências vicentinas "merece ser conhecido por ter certo valor apologético: a Igreja nunca deixou de ser Igreja dos Pobres".
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