As idas e vindas de um carteiro
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 03 de setembro de 2002
Gilmar Agassi<BR>Equipe da Folha 
''Eu não fiz nada e mesmo assim ele veio para cima de mim querendo me arrancar um pedaço''. Essa foi a explicação dada por Josué ao seu chefe após retornar ao posto central dos Correios com a roupa toda rasgada. Aquele tinha sido um verdadeiro dia de cão para o carteiro que trabalha há mais de cinco anos na profissão e ainda não se acostumou em enfrentar animais raivosos.
Josué, que normalmente é uma pessoa muita calma, se irrita todas as vezes que começa a contar os apuros passados para fugir de cachorros nas ruas e dentro dos quintais das casas. Ele fala que não se sabe se é a cor amarela da roupa que chama a atenção ou se os cachorros não gostam dele pelo simples fato de não gostar.
Numa dessas conversas de bar, o carteiro relembrou a primeira vez que precisou encarar um cão raivoso. Era a primeira vez que entregava cartas naquela rua. Como o bairro era periférico, as casas não tinham caixa de cartas. Um pouco desatento ele entrou no quintal para colocar o envelope embaixo da porta.
De repente, ele olhou para o lado e viu aquele enorme cachorro que parecia estar faminto. A princípio, ele pensou em correr, mas o cão estava na direção do portão. Achou que o melhor era ficar estático e esperar sua reação. Josué pensou que o ditado popular ''cão que ladra não morde'' fosse funcionar, mas acabou mal e com a barra da calça toda rasgada.
Apesar de trabalhar numa cidade grande como Cascavel, Josué dispensa a bicicleta. O carteiro conta que o mais difícil não é andar mais de 10 quilômetros por dia, o complicado é entender os rascunhos que os remetentes escrevem nos envelopes. Ele sempre diz que pior que tomar mordida, é voltar para trás com a carta na bolsa.
Mesmo sempre reclamando da profissão, a verdade é que Josué não consegue largar dela. Afinal, ele mesmo reconhece que em nenhum outro serviço teria a oportunidade de no meio da tarde parar na sombra de uma praça para conversar com os amigos, mesmo que seja por pouco tempo.


