As frutas do inferno
César AugustoAS FRUTAS DO INFERNO
Quando o líder comunista Luiz Carlos Prestes foi preso, na década de 30, um advogado católico se encarregou de defendê-lo. Seu nome era Sobral Pinto. Anticomunista ferrenho, Sobral ignorou diferenças políticas para denunciar a desumana situação de Prestes: o homem estava trancafiado num vão, em meio aos próprios excrementos. Quando nenhuma lei parecia amparar aquele réu, Sobral invocou a Lei de Proteção aos Animais. O advogado argumentou que o homem também era um animal - e que as condições impostas a Prestes não eram dignas nem mesmo de um bicho. Mais de 60 anos depois, o que diria dr. Sobral se estivesse aqui? As frutas espalhadas pelo chão da cela, em frente à velha televisão, são apenas um fragmento da realidade cada dia mais asfixiante, promíscua, fétida e desesperadora nas delegacias do País. São apenas frutas no chão - um quadro de natureza morta. Ao fundo, um amontoado de panos e caos. Uma definição concisa das sete pragas do Egito, entre quatro paredes. E pensar que há lugares muito piores. O inferno dos homens e mulheres está em toda parte, em jaulas indignas de animais. O vão de Prestes se multiplicou ao infinito, por quase todas as celas do mesmo país, 60 anos mais velho, ainda animalesco.
(Paulo Briguet)





