As fronteiras na guerra contra a dengue
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quinta-feira, 13 de maio de 2004
Lúcio Flávio Moura<br> Reportagem Local 
Os moradores do Jardim Campos Elíseos, na Zona Sul de Londrina, têm pelo menos uma lição de cidadania a ensinar ao resto da cidade. O bairro pequeno, de casas simples, distante cerca de meia hora de ônibus da Área Central pode se orgulhar de abrigar moradores atentos e zelosos com a própria saúde e com a do vizinho.
Na última medição da Divisão de Epidemiologia da Secretaria Municipal de Saúde, realizada nas últimas duas semanas de abril, o índice de focos do mosquito Aedes Aegipty caiu a zero no bairro. Nenhum foco foi encontrado em nenhuma moradia ou quintal das 10% das casas pesquisadas na amostragem feita no bairro.
Uma raridade em uma cidade em que o índice de infestação é crescente (e ''preocupante'', segundo autoridades sanitárias, como Sônia Fernandes, gerente de epidemiologia) e cuja ''grande mobilização'' parece ser a única saída para que uma nova epidemia da doença nãoaconteça no próximo verão.
Os moradores dos Campos Elíseos enfrentam a dengue com muito empenho. É o caso do vigilante aposentado Maurício Rosa de Souza, 75 anos. Segundo ele, aprendeu com a sua profissão a ser ''asseado''. ''Tinha que recolher toda a tranqueira do prédio porque os moradores exigiam e agora faço isso também na minha casa''. A moradia, na Rua José Maria da Costa, está em reforma. Há material de construção por toda a parte no quintal, mas a chuva fina da tarde não enche nenhum recipiente.
''Recolho tudo e coloco ali ó'', diz apontando uma edificação improvisada, com pilhas de tijolos sustentando telhas de amianto. Debaixo desta espécie de depósito estão baldes, ferramentas e alguns recepientes. ''Faço isso porque tenho medo e porque penso nos vizinhos''.
Um dos vizinhos, o carpinteiro Nilson Augusto, 65, é um dos beneficiados. Mas também vive recebendo elogios por seu esforço contra o mosquito. ''Ele é caprichoso'', diz Souza. Augusto se anima ao lembrar que foi elogiado pelo agente de sa© úde. ''Tinha que ser na cidade inteira assim. Ninguém bobear. Com saúde não se brinca'', aponta.
Em outra casa, na mesma rua, a vida do Aedes Aegypti também não é fácil. O casal formado pelos aposentados José Antonio Gonçalves, 78, e Domingas Marciano, 58, retirou todos os vasos do quintal, apesar de gostarem de flores. Sumiram os vasos, mas estão lá as hortênsias e as rosas. Bilú, o vira-lata da casa, não passa sede mas tem hora para beber água. ''A gente vê que ele acabou de beber e joga o resto fora. A vasilha fica sempre seca'', garante Gonçalves.
O motorista desempregado Cícero Souza, 46, coloca plásticos e garrafas sobre uma pilha de tijolos. Parece um vacilo, mas ele e a esposa, a diarista Luíza Alves de Souza, 41, garantem que não é. A reforma na casa está parada e os tijolos ocupam boa parte da área útil do quintal. ''Deixo tudo emborcado e recolho a cada três dias. Quando não posso recolher, ponho tudo do outro lado. Não junta água''. Poucos vasos, todos com terra. ''O pessoal da dengue conferiu tudo e falou que do que jeito que está não tem perigo'', diz Luíza.


