Curitiba - As 173 escolas da rede municipal de ensino seguem as mesmas diretrizes curriculares. Isso levaria a deduzir, em uma análise simplista, que o desempenho na avaliação proposta pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) -órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC)- seria semelhante entre as instituições. No entanto, ao observar os resultados do Índice de Desenvolvimento do Ensino Básico (Ideb), o que se constata é uma disparidade entre os resultados das avaliações.
A reportagem da FOLHA visitou duas escolas avaliadas pelo Inep/MEC, na Prova Brasil, em 2007. A Escola Municipal São Luiz, no bairro Água Verde, que teve a maior pontuação (7,1), e a Escola Municipal Itacelina Bittencourt, no Guaíra, que não chegou a ficar com a pior nota, mas teve pontuação (3,7) abaixo da média (5,1), no levantamento geral. Os resultados consolidados foram divulgados no mês passado.
Em termos de estrutura física, oferta de material didático e qualificação de professores, por exemplo, a condição entre as duas escolas é muito próxima. O que as diferencia é o perfil dos alunos. Embora nas duas instituições a maioria das crianças seja de famílias de baixa renda, os alunos da Itacelina Bittencourt enfrentam adversidades ainda maiores nas regiões onde vivem e no ambiente familiar. Cerca de 90% dos alunos moram no Parolin e convivem com as regras e toques de recolher de grupos que lideram o tráfico de drogas no bairro, além dos frequentes assassinatos.
Sandra Regina Martins está há dois anos na direção da Escola Municipal Itacelina Bittencourt. Conhece bem a realidade de seus alunos e sabe o quanto isso influencia no desempenho escolar. ''Tem muitos alunos que passam a noite catando papel com os pais e vêm para a escola de manhã com sono e com fome'', contou. ''Nem por isso a gente passa a mão na cabeça. Procuramos fazê-los entender que, na escola, eles têm que aproveitar ao máximo para aprender e, no futuro, mudar sua própria realidade'', complementou a educadora.
Segundo Sandra, alguns alunos têm problemas sérios de ''transtornos de conduta'', sendo, inclusive, muito agressivos. Esses casos são encaminhados para atendimento especializado.
Uma das preocupações da diretora foi buscar aproximação com a comunidade para conquistar o envolvimento dos familiares nas atividades da escola. O resultado, segundo ela, foi positivo e influenciou na melhoria do aprendizado. A Itacelina é uma das instituições onde o ''Comunidade Escola'' é desenvolvido. O programa oferece atividades de cultura, esporte, lazer, geração de renda e acesso gratuito à internet, nos finais de semana. A biblioteca da escola fica aberta e voluntários dão aulas de reforço escolar. ''Essas atividades também contribuem na qualidade do ensino'', avaliou Sandra.
É somente na escola e por meio de projetos extracurriculares, como os de leitura e escrita, que os alunos do Itacelina Bittencourt ganham algum reforço no aprendizado. ''Os pais não colaboram. O que os alunos absorvem é aqui'', disse Sandra. Não são dadas, nem mesmo, lições de casa. Todo o material das crianças fica na escola. Antes dessa medida, os cadernos e livros muitas vezes eram extraviados.
De acordo com Sandra, os professores encararam o penúltimo resultado do Ideb (2,8) como um desafio e ''vestiram a camisa'' para ultrapassar uma outra barreira, além da realidade de vida dos alunos. Como a escola adotou o sistema de ciclos, as crianças não tinham o hábito de fazer provas e, muito menos, preencher gabaritos. Foi preciso adotar a prática, de maneira lúdica, mesmo sem que isso fizesse parte da avaliação formal.
Apesar da nota no Ideb ter ficado abaixo da média, para ela e para os professores, o resultado foi motivo de comemoração. ''Fizemos uma festa com as crianças, com bolo e tudo'', lembrou a diretora. Os 3,7 representaram crescimento de 23% em relação ao resultado anterior e, pelo plano de metas, essa nota só seria atingida em 2011.

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