Foz do Iguaçu - Encerrada a partida de buraco, elas iniciam os preparativos para o segundo programa da terça-feira, de sol forte em Foz do Iguaçu. Josefa coloca o véu preto sobre a cabeça, Filomena entrelaça o terço na mão, Matilde apanha a bíblia e Lúcia pega velas brancas para o grupo. As quatro saem juntas rumo ao mesmo lugar visitado há anos.
O local escolhido é o Cemitério do Jardim São Paulo - meio frequentado dia e noite por humanos de diferentes tipos. (Lá estão os vivos, os inventores do campo-santo, concebido para abrigar restos mortais e para ser um ambiente lúgubre onde as pessoas possam transformar a saudade em lágrima).
(Também no cemitério, mas em outro nível, estão os mortos, cada um com seu tipo de caixão. O indigente, num caixote, sem direito a uma lápide, nem placa de identificação. E, numa área mais reservada, aqueles que trilharam solos frequentados por poucos até serem eternizados em luxuosos mausoléus).
Entre mortos e vivos, as quatro mulheres, buscando um sentido a mais para suas vidas nos sepultamentos, quando reúnem forças para rezar por desconhecidos, de quem não sabem nem o motivo da morte. Para Josefa, a idealizadora da terapia ocupacional, um enterro, curiosamente, é um bom momento para comprovar a própria existência.
Apesar de atentas ao primeiro funeral da tarde, Josefa, Filomena, Matilde e Lúcia percebem o cortejo de uma estudante de sete anos, estuprada e assassinada na periferia iguaçuense. Elas decidem ignorar o vigia morto durante um assalto para acompanhar os pequenos amigos da garota morta a tijoladas. É a primeira vez que abandonam um sepultamento ''pela metade''.
''Tão novinha para morrer'', lamenta Josefa, ao ver o rosto desfigurado da menina. A cena choca as senhoras, tanto pela crueldade do crime quanto pela presença de crianças, de semblantes inocentes, tiradas da escola e enfileiradas ao pé da cova para prestar uma homenagem a mais uma vítima da insegurança de Foz.
Mas o inesperado estaria por vir. O desespero da mãe, o olhar bisbilhoteiro da criançada, a revolta dos parentes e a indiferença do coveiro quebram os corações das mulheres, tão acostumadas com rotinas fúnebres. Traumatizadas, decidem: relação com um buraco, agora, só no jogo de baralho. Na pior das hipóteses, como destino final de cada uma.

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