As crianças que nós não queremos
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terça-feira, 07 de setembro de 2010
Rosiane Correia de Freitas<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Pelo menos cinco mil crianças incluídas no Cadastro Nacional da Adoção (CNA) procuram um lar e uma família. São crianças e adolescentes cujos pais perderam o pátrio poder e, por diversas razões, não podem mais voltar a viver com a família biológica. Elas estão em abrigos mantidos pelo Estado. O maior desejo delas, dizem assistentes sociais, juízes e outros profissionais da área de infância e juventude, é ter uma família.
É o caso de duas crianças paranaenses, que chegaram a viver na rua. A Justiça retirou ambas da família biológica. Por três anos elas moraram numa casa-lar esperando pela adoção. O problema é que elas estavam longe do perfil preferido dos casais brasileiros: são negras e têm mais de cinco anos.
A vida no abrigo só não durou mais para essas crianças porque, por causa do perfil, foram encaminhadas para adoção internacional. Ambas foram adotadas este mês pelo casal Brian e Rosemari Teachout. Ele é americano, ela brasileira. São casados há 11 anos e têm um filho, Nicholas, de seis anos.
A família Teachout faz parte de uma parcela pequena, mas importante de estrangeiros que procuram adotar crianças brasileiras. Os casais estrangeiros estão acostumados a não estabelecer muitas limitações no perfil da criança que procuram, explica a coordenadora Técnico-administrativa da Comisão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja), Jane Pereira Prestes.
O perfil dos estrageiros atendidos pela Ceja mostra bem o que isso significa. Dos casais atendidos, 77% não impuseram qualquer restrição de cor ou raça, 81% aceitaram crianças com idade entre 5 a 10 anos e 60% estavam dispostos a adotar dois ou três irmãos.
No Brasil, segundo a psicóloga Lídia Weber, do Núcleo de Análise do Comportamento da Universidade Federal do Paraná (UFPR), 83,5% das crianças adotadas têm até dois anos. Apenas 12,4% têm cor de pele diferente da dos pais adotivos.
Chance única
Para profissionais como Jane, esses casais são uma chance única de garantir uma família para crianças que estão vivendo e crescendo nos abrigos do Estado. Quando chegou ao Brasil, Rose percebeu o que isso significava. Ela conheceu as duas crianças que está adotando há três semanas, mas ambas já a chamam de mãe. ''Dá para ver que elas querem uma família, querem pertencer a uma família'', afirma.
''Os estrangeiros têm menos restrições porque falam sobre adoção há muito mais tempo que os brasileiros. Além disso alguns países impõe restrições, como vetar a adoção de bebês por casais mais velhos'', explica a psicóloga. ''Eles são mais esclarecidos e entendem a adoção como um direito da criança.''
Lídia também aponta ser natural que a pessoa que procura a adoção por causa de problemas de fertilidade queira um bebê. ''Só que o desejo não é um direito'', alerta. ''O Poder Público tem que fazer campanhas permanentes que eduque crianças e adultos para a adoção'', recomenda. ''Se não se faz nada, não dá para jogar a culpa só na população porque ela precisa ser educada para mudar'', completa.
Audelino de Souza, representante da organização Limiar, que atua em adoções internacionais, vê outra vantagem na adoção por casais estrangeiros: são raros os casos de adotantes que desistem do processo. ''Em 18 anos vi acontecer só uma ou duas vezes. Eles chegam aqui muito conscientes, muito abertos para a criança'', avalia.


