Quando o assunto é adoção, o preconceito pode atingir tanto quem pretende adotar quanto quem está para ser adotado. Se ontem a Folha tratou da discriminação sofrida por homossexuais que querem ser mães ou pais adotivos, a reportagem de hoje aborda a questão das dificuldades enfrentadas por crianças que estão na fila por uma família. Rejeitados primeiramente pelos pais biológicos, muitos meninos e meninas não conseguem ser adotados por causa da cor da pele, do sexo e da idade ou, até mesmo, por apresentarem problemas de saúde ou serem portadoras de deficiências.
Levantamento feito junto à Vara da Infância e Juventude de Londrina comprova uma tendência nacional: a grande maioria dos candidatos a pais preferem meninas brancas, com pouca idade e saudáveis. A assistente social Cláudia Mária Ferreira e a psicóloga Ana Paula Cruz de Queiroz, que atuam na Vara da Infância e Juventude em Londrina, lembram que o processo de adoção admite que o candidato defina as características físicas do futuro filho adotivo. Elas atuam junto aos interessados e às crianças que estão para adoção, e argumentam que com esse passo as chances de sucesso, para ambas as partes, aumentam sensivelmente.
Ana Paula explica que o perfil preferido de criança reflete os perfis dos próprios habilitados. ''Quando se projeta a vinda de um filho faz-se uma idealização desse filho e enquadra o perfil dessa criança ao sonho que sem tem'', comenta. E as meninas são mais procuradas por causa da crença de que são mais sensíveis, calmas e companheiras.
Tanto a psicóloga quanto a assistente social observam que hoje já existem pessoas mais flexíveis, que buscam por exemplo adoções inter-raciais ou de crianças com uma certa idade. Mas, mesmo assim, para aqueles que não conseguem ser adotados até completarem seis anos as probabilidades de conseguir uma nova família diminuem drasticamente.
E além do sexo, idade e cor da pele, dois outros fatores interferem, e muito, nas chances de uma criança ser adotada: sua saúde e estrutura física. Aquelas que são portadoras de doenças graves como Aids ou são portadoras de deficiência raramente despertam interesse.

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