As aventuras de Buca na terra dos cafezais
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de abril de 2014
Celso Felizardo<br>Reportagem Local 
Santo Antônio da Platina - Era noite em Santo Antônio da Platina, município encravado entre morros no Norte ainda não tão velho do Paraná. Enquanto boa parte dos quase cinco mil moradores da cidadezinha dormia, a noitada apenas começava para alguns fazendeiros endinheirados ávidos por diversão. Eles aproveitavam os prazeres da boemia em uma casa afastada, na saída para Curitiba, a um tiro de pedra dos cafezais: a zona.
O dia havia sido atípico naquele 24 de agosto de 1954. Na descida da Rua Ruy Barbosa até a Praça da Matriz, as lojas estavam fechadas, as pessoas apreensivas. Minutos antes, o locutor Heron Domingues, a voz do Repórter Esso, anunciava a morte do presidente Getúlio Vargas. A notícia da Rádio Nacional, captada em ondas por um rádio RCA Victor, foi comemorada na casa de seo Antônio Ferreira Nascimento. Na Revolução de 1930, o comerciante que morava em Siqueira Campos, na mesma região, perdeu muito dinheiro com saques das tropas gaúchas comandadas pelo homem que ganharia o apelido de "Pai dos Pobres".
No bordel, os homens mais instruídos discutiam política e faziam previsões sobre o futuro do país. E bebiam muito. Mas bastava os músicos começarem a tocar para que os assuntos mais sérios ganhassem ponto final. O silêncio dos espectadores só era quebrado pelo barulho seco dos copos que desciam à mesa de peroba com violência após cada tragada de uísque escocês original. Os scotches eram comprados na próspera Londrina, distante 160 quilômetros de terras vermelhas cultivadas com pés de café a se perderem de vista.
Em uma dessas viagens, desembarcou em Santo Antônio um músico negro norte-americano que mal falava português. Alheio a qualquer notícia da família, amigos e mulheres que deixou para trás em suas andanças pelo mundo, o saxofonista e clarinetista Booker Pittman encantava a plateia com seu jazz refinado. Em meio à névoa da fumaça dos charutos e cachimbos, o salão todo parava para admirar a performance quase que teatral da lenda da música, já com seus 45 anos e um bigode fino sob as grandes narinas.
Se falar português era tarefa difícil para ele, a recíproca era verdadeira. Booker virou "Buca", quase como na pronúncia do inglês britânico. Já morava havia mais de ano na cidade. Foi contratado para tocar na orquestra de Nelson Bernardi. Tornou-se uma espécie de figura folclórica. Durante o dia, vagava de bar em bar com seu sax e juntava gente para vê-lo tocar. Os comerciantes nunca deixavam o copo dele vazio, pois o que perdiam com Buca, ganhavam com os outros. Música de primeira a troco de pinga.
Noitadas
Mas era mesmo das noitadas na zona que Buca gostava. Lá se sentia a vontade. Não faltava quem lhe pagasse cachaça e companhia. Alguns vinham de longe, só para ver Pittman.
Buca chegava a passar uma semana na farra depois voltava para a casa de madeira, na Rua Sete de Setembro, onde dividia o teto com os músicos Nestor, Vadico, Ari e o moderninho Jayme. O último, mais novo da trupe, foi indicado a assumir a orquestra depois que Bernardi resolveu parar.
E foi Jayme Marques Pinto que recebeu a equipe de reportagem em sua casa, à sombra dos frondosos ipês da Avenida Oliveira Motta, no centro de Santo Antônio da Platina. Apesar dos 86 anos, o compositor guarda intactas as memórias dos três anos que abrigou Booker Pittman nos fundos de seu antigo endereço, na Rua Floriano Peixoto.
Continue lendo:
- O showman que parava o salão
- De volta para as casas de shows
- Ophelia e a mágoa que não cicatrizou
- Admirado pelos grandes mestres
- Ilustre desconhecido para os moradores


