As alegrias e provações da vida em clausura
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sexta-feira, 19 de outubro de 2007
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Uma vida de sofrimentos, penitências, tristeza e distanciamento da realidade ao redor. Até hoje esta é a idéia que persiste no imaginário popular quando falamos de religiosos e religiosas que vivem em clausura nos mosteiros. Mas a simpática monja Maria Elisabeth da Trindade, de 47 anos, do Carmelo São José, de Passos (MG), que participa de um congresso em Londrina, afirma que a rotina das carmelitas é bem diferente. Ao ouvi-la falar de seu dia-a-dia, fica a certeza de que abnegação e vocação são imprescindíveis, mas que é possível encontrar a realização e a felicidade dedicando-se a uma vida de oração e contemplação.
Elisabeth está visitando o sul do País pela primeira vez na vida, e sua estada na Casa de Retiros Monte Carmelo, em Londrina, é uma das raras vezes nos últimos 26 anos em que ela tem a oportunidade de estar em meio a tantas pessoas. Ao todo são 120 frades, monges e leigos, reunidos desde a última terça-feira para estudar o documento da V Conferência Episcopal Latino-Americana e Caribe (Celam) realizada em Aparecida no mês de maio, durante a visita do para Bento XVI. ''É a primeira vez que religiosos e leigos de toda a América Latina se reúnem com este objetivo'', explica.
A irmã define a vida de clausura como sendo muito simples. ''Não há nada de desumano, como as pessoas imaginam.'' Ela revela que o dia das carmelitas é dividido entre orações, missas, tarefas caseiras e momentos de recreação, quando as monjas rompem o silêncio reinante no mosteiro e aproveitam para se exercitar. São dois intervalos - uma hora depois do almoço e uma hora depois do jantar - em que conversam, riem e até jogam bola.
''Todo o clima no mosteiro deve ser de silêncio na maior parte do tempo, para não atrapalhar as que estão em oração. A clausura pode ser entendida como este ambiente de oração permanente'', informa irmão Elisabeth. Ela conta que resolveu entrar para a Ordem das Carmelitas Descalças aos 21 anos, motivada pelo desejo de trabalhar pelos pobres. ''Pensei em ser missionária, mas lendo as biografias de Madre Tereza de Calcutá e de Santa Terezinha percebi que minha vida só seria plena se fosse totalmente dedicada a Deus. Descobri então que poderia ser missionária pela oração, e desta forma estar em toda parte e fazer muito mais pelas pessoas.''
Ela recorda que a mudança drástica de vida trouxe momentos de provação. ''Minha mãe entrou em depressão, por não saber direito o que significava a clausura. Os primeiros anos são de treinamento, sentimos muita saudade da família e há uma espécie de saturação com a rotina de tantas orações. Por isso os votos religiosos definitivos só são feitos após os seis primeiros anos.'' Passado o desafio inicial, garante Elisabeth, vem uma satisfação difícil de mensurar. ''O Carmelo é um lugar de pessoas felizes'', resume.
O silenciamento, segundo a irmã, é um aprendizado que pode levar anos e até a vida inteira. Com exceção das duas horas de recreação, as 16 moradoras do mosteiro falam apenas o estritamente necessário, por isso a sensação de estranheza quando saem de sua moradia. ''O mundo é muito barulhento, às vezes fico pensando como as pessoas conseguem viver nele. Me sinto um peixe fora d'água quando estou fora do Carmelo''.
A ''loucura'' em que o mundo se transformou pode, inclusive, estar colaborando para o aumento das vocações dentro dos mosteiros. ''Está aumentando o número de carmelitas no Brasil, enquanto há dificuldade de encontrar vocações para a vida apostólica.'' A monja alerta, porém, que o mosteiro não deve ser visto como um refúgio de pessoas que estão sem perspectiva, mas de pessoas dispostas a dar a vida pelos irmãos. ''Viver na clausura exige muito mais equilíbrio psíquico do que viver no mundo exterior.''
O dia dentro do mosteiro é definido pela irmã Maria Elisabeth da Trindade como uma ''colcha de retalhos''. Confira a rotina das carmelitas:
1 hora do dia: 30 minutos de oração litúrgica
Uma hora de oração pessoal e silenciosa
Missa
15 minutos de oração litúrgica
Tarefas caseiras e trabalhos artesanais (confecção de hóstias, paramentos, bordados, terços, para levantar recursos para o mosteiro)
Oração litúrgica
Almoço em silêncio (uma irmão lê a Bíblia em voz alta, enquanto as outras fazem a refeição)
Recreação
60 minutos de silêncio, onde cada uma escolhe o que fazer
60 minutos de leitura
Trabalhos artesanais
30 minutos de oração litúrgica
60 minutos de oração pessoal
30 minutos de oração litúrgica
Jantar
Recreação
Oração da noite


