As marcas em forma de cruz feitas com várias demãos de caneta esferográfica azul se destacam em páginas e mais páginas de uma antiga cadernetinha que o advogado criminalista Hamilton Laertes Araújo, de Londrina, mantém sempre sobre sua mesa de trabalho. Diz que é seu obituário particular, cultivado desde o início da década de 1990. A cada nova notícia de óbito, ele procura com paciência o nome do cliente morto e assinala uma cruz à frente. Nestes 20 anos passados, afirma, já conta 190 almas perdidas desgraçadamente.
O ritual auxilia a memória a lograr o tempo e permite que numa corrida de olhos pelas folhas amareladas do libreto seja possível recuperar o que ficou no passado. Alguns casos levam, além da cruz, a data do acontecido. Noutros, basta o apelido do sujeito para o ''doutor Laertes'', como é mais conhecido, reviver o enredo trágico da vida criminosa, quase sempre, abreviada prematuramente. ''Foram vítimas de homicídio, executados por seus próprios comparsas ou então em troca de tiros com a polícia'', fala.
Mas as cruzes também evidenciam a formação cristã do advogado que diz não permitir que seu coração se petrifique ante a pretensa racionalidade do mundo das leis. E acredita tanto no poder transformador da fé que cada novo cliente que bate à sua porta recebe de antemão um exemplar da Bíblia Sagrada e ouve passagens como esta do Livro dos Salmos.
''Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes, o seu prazer está na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite. Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido.''
Se não consegue tocar todos os corações, o advogado confidencia que as pequenas vitórias já lhe trazem conforto. ''Um dia, chegaram dois jovens e comecei a dar conselhos a eles. Um deles continuou sisudo, com cara de mal, sem dar conversa. O outro chorou, me olhou, disse que eu falava igual ao pai dele e contou que iriam tentar resgatar um preso de uma cadeia. Pedi para eles não fazerem aquilo. Dias depois, ele retornou sozinho e me entregou a granada que eles iriam usar no resgate. Fiquei sabendo meses mais tarde que o companheiro dele e mais dois foram mortos numa troca de tiros com a Polícia, em Foz do Iguaçu.''
Faz isso porque, como um pescador de almas ariscas, Laertes sabe que não é possível resgatá-las apenas estendendo a mão fria do Direito. ''A violência começa na própria sociedade, porque também somos responsáveis por nossas pequenas omissões. Então, acho que preciso dar esta minha pequena contribuição'', assinala o advogado.
Indo adiante, ele critica que o aprisionamento também não cumpre a sua parte, que seria a da ressocialização. ''A Lei de Execuções Penais não no 10º, no 20 ou qualquer outro, adota em seu artigo primeiro a finalidade expressa da ressocialização. Quem está preso não é irrecuperável mas falta apoio. Um presídio é um espetáculo satânico, uma masmorra ora muito quente ora muito fria. Num lugar destes, há carência de tudo. É uma escola de pós-graduação do crime'', adverte. ''O ódio excita contendas, mas o amor cobre todas as transgressões'', ensina usando a passagem contida nos Provérbios.

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