Marcos BorgesRecado da naturezaVizinhos protegem o exemplar da café-de-bugre com grade e placa de identificação: ‘Você pode precisar de mim’ - Para quem não me conhece eu me chamo café-de-bugre. Tenho muito prazer em me identificar! Fui vítima de um vandalismo cruel. Agora que sou conhecida, espero mais consideração; afinal, não pedi para me urbanizarem.
Plantada há seis anos num terreno da Prefeitura na rua Mem de Sá, Vila Nova, (Centro), a árvore que foi danificada por vândalos há cerca de 90 dias, ficando apenas com parte do tronco, volta a apresentar sinais de vida. Mas, para evitar novos ‘‘ataques’’, alguns vizinhos decidiram proteger a árvore, que ganhou uma cerca de proteção e uma placa de apresentação.
‘‘Ficamos pensando de que forma poderíamos evitar que essa árvore, que foi tão frondosa, com propriedades medicinais, fosse desgalhada novamente. Veio a idéia de fazer a placa e a cerca’’, conta Sebastião Vaz Lopes, conhecido como Tião Cabeleireiro. Ele teve a ajuda de outros vizinhos que trataram de confeccionar a placa. ‘‘A grade eu mesmo fiz.’’
Responsável pelo plantio da café-de-bugre, o aposentado Mário Takeda morou ao lado do terreno público durante 12 anos. A muda, lembra seu Mário, foi trazida de uma chácara próxima do bairro. Takeda lembra que na cidade do interior paulista, onde passou a infância, era muito comum o uso das folhas da árvore no preparo de chás. ‘‘Ela limpa o sangue e cura alergias.’’
Mário Takeda diz ser um apaixonado por árvores. Ele mostra o exemplar que plantou ao lado da casa onde morou durante anos. ‘‘Ela também sofreu bastante, veja os sinais no tronco’’. Filho de agricultores, seu Mário comenta que o mais gratificante é poder contemplar a beleza da planta e desfrutar da sombra produzida por ela. ‘‘Adoro uma sombra’’, diz. ‘‘Sombra, água fresca e Coca-Cola’’, brinca Tião Cabeleireiro.
Morador há mais de 20 anos naquele local, o cabeleireiro se recorda que só começou a dar atenção especial àquela árvore há dois anos. Intrigado com o movimento de pessoas que iam atrás de folhas e pequenos galhos, ficou sabendo que se tratava de uma planta medicinal. As pessoas comentavam que era uma espécie rara em Londrina. A partir daí, Sebastião passou a olhar com mais atenção para a planta. ‘‘Não deixava judiarem dela, amarrarem as cordas dos cavalos que vinham pastar’’. Só que a ação dos moleques, que a destruíram, diz Sebastião, não foi possível evitar. ‘‘Não vi quando aconteceu’’.
O carinho pelas plantas, segundo Sebastião e Mário Takeda, se deve ao fato de eles terem sido criados na zona rural. Mas o cabeleireiro vai avisando: ‘‘Não sou do Partido Verde nem do tipo fanático. Agora, não podemos permitir vandalismo’’.
Na opinião de Sebastião, o respeito com a natureza depende da educação familiar. Não se deve, segundo ele, esperar medidas do Estado ou do Município. ‘‘Os pais devem educar seus filhos para que respeitem as plantas, os animais, a natureza’’, fala.
Autor da ‘‘apresentação’’ da café-de-bugre, Sebastião Lopes destaca que o chá feito com as folhas da árvore é excelente depurativo do sangue, usado até mesmo no tratamento de doenças como a sífilis. Ele admite que a pequena cerca ao redor do tronco não tem o poder de conter a ação de vândalos mas pode ajudar a conscientizar as pessoas. ‘‘Não me desgalhe mais. Você pode precisar de mim’’, avisa a placa fixada na cerca de proteção.

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