A pintora e escultora Maria Lúcia Rangel, 82 anos, vive do passado. Sofrendo de osteoporose aguda, ela não pode ficar em pé e divide seu tempo entre a cadeira de rodas, a cama e a televisão. Ela é interna do Asilo São Vicente de Paulo (zona sul de Londrina) há dois anos.
Nascida em Juiz de Fora (MG) em 1916, ela conta que é órfã de pai e mãe e foi criada, juntamente com o irmão, por amigos. A dedicação às artes plásticas tomou sua vida e o reconhecimento veio quando ainda era bem jovem.
Seus quadros mereceram prêmios em concursos nacionais de pintura e escultura. Além do amor à pintura, a arte era seu ganha-pão - sempre viveu da venda de seus quadros e criações. Dos seus trabalhos guarda apenas uma pasta com xerox e fotos de suas produções.
Maria Lúcia Rangel nunca se casou. Seu irmão, com quem vivia no Rio de Janeiro em um apartamento próprio, morreu há mais de dois anos e ela se viu sozinha e doente. ‘‘Quando estava no Rio ainda trabalhava, continuava produzindo. Mas depois que vim para cá não pude mais’’, diz. Doente, ela recorreu a um afilhado de quem gosta muito; vendeu o apartamento no Rio de Janeiro e veio para Londrina.
Internada no asilo, ela recebe visitas frequentes do afilhado e sua irmã. Além da assistência, foi providenciado todo o material de pintura para que ela tentasse voltar a produzir, mas Lúcia não conseguiu. Confusa, ela fica dividida entre a vontade de voltar a ter um lugar só seu onde possa trabalhar de novo como nos velhos tempos e a consciência de que ‘‘nada vai voltar a ser o mesmo’’.
‘‘Às vezes fico achando que só posso ficar esperando a morte chegar. Aqui ninguém sabe quem eu sou, o que eu fiz’’, lamenta. Maria Lúcia Rangel continua sonhando com o reconhecimento e os louros das mostras onde tantas vezes, cercada de amigos, saiu vitoriosa. ‘‘Quem sabe eu pudesse voltar a pintar, produzir para este governo. Mostrar quem eu sou. O que você acha?, pergunta. (C.B.)

mockup