Artesão à moda antiga
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quinta-feira, 09 de dezembro de 2010
Silvana Leão 
Em um imóvel na esquina da Avenida Manoel Ribas com a Rua João Antonio de Moraes, bem em frente ao Cemitério de Jaguapitã (Norte), o tempo parece ter parado No barracão de fachada desbotada, o único balaieiro da cidade cumpre, há quase quatro décadas, a rotina de cortar milimetricamente as tiras de bambu que, em suas mãos ágeis, se transformarão em cestaria da boa No ambiente simples, de pouco conforto e muita história, o mineiro José Augusto Luiz, 83 anos, mora, trabalha, toca modas de viola que lhe remetem à juventude e recebe os amigos que não faltam para um dedo de prosa
Luiz chegou à cidade em 1973, depois de sair de Nova Rezende (MG) e passar uma temporada no interior de São Paulo ''Gosto muito da minha terra, mas adoro Jaguapitã'', derrete-se o artesão, que em função do pouco estudo - foram apenas cinco meses frequentando a escola - teve que encarar desde muito novo o trabalho duro da roça Foi no tempo que sobrava da lida nas lavouras de café e de cana que fazia experiências com as fitas obtidas nos bambuzais ''Achava um serviço bonito, sempre tive vontade de aprender'' E assim acabou descobrindo, sozinho, a técnica milenar de produzir balaios e cestas de todos os tamanhos e para várias funções
Luiz bem que tentou ensinar o ofício a mais gente na cidade, mas com exceção de João, um de seus seis filhos, ninguém conseguiu levar adiante a profissão Entre os moradores do município de cerca de 12 mil habitantes ele é descrito como um homem trabalhador, apesar da idade avançada A reportagem o encontrou sentado no velho banco de madeira, à porta de seu QG Um descanso merecido: horas antes, em companhia do filho, o artesão havia se embrenhado, como tantas vezes na vida, em um bambuzal em busca de matéria-prima para seus cestos
Tirando a aposentadoria de R$ 510 como trabalhador rural, Luiz não sabe quanto ganha por mês com a venda de seu artesanato ''Não dá para cobrar caro O cesto médio, por exemplo, a gente vende a R$ 12 no atacado'' Mas vende para quem? Segundo o balaieiro, para as granjas (são várias na cidade, que abriga dois grandes abatedouros de aves), para produtores de milho, padarias e até para quem trabalha com material reciclável (para estes, são produzidos balaios enormes) ''Também faço estas peneiras para o pessoal que planta mamona e café'', apressa-se em mostrar uma delas, com seu trançado perfeito
Volume de produção também é desconhecido Ele sabe apenas que leva uns ''par de horas'' para terminar uma peça ''Antigamente a gente vendia mais, o pessoal das fazendas vinha muito aqui para comprar Hoje tem máquina para tudo, até para cortar cana'', indigna-se o ex-boia-fria, que é do tempo em que tudo era feito no facão Bem perto da entrada do barracão, quem chega vê logo uma engenhoca que, ao que tudo indica, foi instalada contra a vontade de Luiz ''É coisa do meu filho, que comprou para cortar as tiras de bambu Prefiro cortar na mão''
Além dos cestos à moda antiga do Luiz, Jaguapitã também é conhecida como a Capital do bilhar Segundo o Setor de Tributação da Prefeitura, há aproximadamente 50 fábricas de mesas para sinuca na cidade Elas estão em todo lugar e são de todos os tamanhos É comum ver pelas ruas tranquilas caminhões carregando grandes volumes em direção à via de saída São as mesas de Jaguapitã seguindo seu rumo por este nosso país com jeitão de continente


