As mãos trazem os sinais de uma vida inteira de trabalho, e já não têm a mesma habilidade da juventude. A vontade de aprender, porém, é maior que as limitações impostas pelo tempo, então o jeito é lançar mão da criatividade. Foi o que fez a professora Cristiani Arazawa Pinto, do Curso de Alfabetização Básica para Adultos do Sesc em Londrina. Para melhorar a coordenação motora de seus alunos, ela ensinou a eles algumas técnicas de artesanato. Depois de tudo pronto, foi montada uma exposição e ontem um dos trabalhos foi premiado com escultura do artista plástico Edson Massuci.
A contemplada foi Erlete Dutra Cerqueira, de 49 anos. Motivada pela fé em Nossa Senhora, ela resolveu reproduzir a Catedral de Londrina, utilizando a técnica de decopagem. ''Foi a primeira coisa que veio na minha cabeça. Fiz aos pouquinhos, durante várias noites.'' Como a maioria dos colegas de turma, Erlete passou a infância na Zona Rural, onde as dificuldades para estudar eram muitas. ''Meu pai dizia que mulher não precisa saber ler e escrever'', conta.
Erlete começou a fazer o curso incentivada pelo filho, que viu o cartaz no ônibus e a matriculou. ''Eu tinha vergonha de procurar um curso, por causa da minha idade. Mas é duro depender dos outros para tudo. Não saber ler e escrever é a mesma coisa que ser cego.'' A primeira palavra que Erlete conseguiu escrever foi 'doce', e se emociona ao lembrar do dia em que desvendou o mistério das palavras: ''Nem acreditei quando a Cris (Cristiani) falou que eu já sabia ler. Foi como se um novo mundo se abrisse.''
A aluna mais velha da turma é Katsue Saito Sato, de 82 anos. Ela saiu do Japão com a família aos 13 anos, e nos anos que seguiram nunca mais havia conseguido colocar os pés em uma escola. ''Sempre quis falar direito e escrever em português, mas antes não podia. Agora vou estudar enquanto o corpo aguentar'', avisa.
A professora está animada com os benefícios do artesanato. Sem perceber, enquanto trabalham com barbantes, tintas, jornais e linhas, os alunos aperfeiçoam a escrita. ''Já dá para perceber que o lápis é usado com mais delicadeza, respeitando a linha'', orgulha-se Cristiani, mostrando o caderno de uma das alunas.

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