Artesã vende bijuterias e empresta conhecimento
Walter Ogama
De Londrina
Um diploma de relações públicas quardado na gaveta de casa é um título que pouco valor tem hoje para Ana Elizabete Pedrosa Cavalcante Catarino, 41 anos, uma mulher que veio do Recife há 7 anos e desde que chegou em Londrina convive, de segunda à sexta-feira, com estudantes, professores e funcionários da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Também nestes sete anos Ana é personagem constante nos vestibulares da instituição. Como neste último, com pouco menos de 28 mil candidatos disputando as cerca de 1.400 vagas.
Mas Ana, diferentemente dos vestibulandos, disputou nos quatro dias de provas a vaidade da moçada, papel que ela desempenhou sem fazer uso de parafernálias ou aparatos sofisticados. Usou uma mesa forrada com pano preto, uma cadeira para ela e outra para a clientela, um alicate, matéria-prima e muita criatividade. Artesã do ramo de bijuterias, Ana produziu e comercializou brincos, pulseiras, gargantilhas, anéis, correntes e uma variedade de peças que, expostas sobre o pano preto da mesa brilharam nos olhos de um bom número de vestibulandas. É essa a fonte de renda de Ana na UEL, fruto de uma licença que ela conseguiu na prefeitura do câmpus para manter o seu negócio permanentemente na instituição.
Formada na Universidade Federal de Pernambuco, do diploma de relações públicas Ana usou somente a facilidade de se relacionar com as pessoas como peça de marketing. A exemplo do que faz nos períodos de aulas na universidade, a recifense conquistou jovens candidatas, tensas após dezenas de questões respondidas, com a espontaneidade: conversou, mostrou saber muito mais do que aprendeu no passado nas salas de aula, conquistou simpatias. E até manifestou opinião sobre o que sente da euforia da garotada em relações ao curso superior e o que o mercado oferece para esses futuros profissionais. Com base em sua experiência:
- Uma pessoa graduada precisa de especialização, porque na atualidade a graduação em curso superior é como o curso colegial de antigamente.
Não só especialização, acrescenta Ana. Uma conversa com um garoto universitário, recentemente, mostrou a Ana que sobram meninos e meninas desinformados, com os pés nas nuvens, ignorantes até das questões geográficas do País.
- Ele me perguntou de onde eu era e respondi ser de Olinda. Imagine que ele voltou a me perguntar onde é que ficava isso! Nas conversas que tenho com os estudantes infelizmente constato que a maioria é criança, não sabe quase nada.
Foi justamente por se considerar desatualizada sobre a profissão que pretendia exercer que Ana abandonou a possibilidade de seguir carreira como relações públicas e optou pelo artesanato. A atividade, garante Ana, permite que ela, os dois filhos e o marido, um desenhista atualmente sem emprego, vivam bem. Viver bem, segundo Ana, exige que ela alcance por mês uma renda de cerca de R$ 2.000,00 com as bijuterias.
- Eu não vivo de status. Meu destino é outro. Conheço muita gente formada atrás de um balcão, com salário baixo. Eu preciso ser livre para fazer o que eu gosto. Luto por isso e dobro os meus esforços para dar uma boa alimentação para a família e ter como morar bem. Sou feliz, eu vivo realmente e nada passa pela minha vida.
Apesar de um certo tom discursivo, principalmente quando Ana se refere à sua resistência em fazer parte do sistema - esse que, segundo ela, faz as pessoas virarem uma espécie de robô, na luta por melhor posição social -, a artesã assegura em suas palavras que tem os pés no chão. Ela aceita que existe uma globalização inevitável, permitindo inclusive que garotos namorem garotas pela Internet. Revolta-se com a injustiças sociais, mas não abre mão de um sentimento brasileiro:
- Eu sou a realidade do Brasil. Eu sou real. Mas não deixo de ser patriota.
É assim. Ana, com diploma de relações públicas engavetado, garante estar feliz por saber viver com as bijuterias. No meio da conversa a artesã recebe Margarete de Almeida, uma vestibulanda de 18 anos que veio de Itatinga (SP) tentar uma vaga no curso de medicina.
Margarete virou amiga de Ana desde o primeiro dia do vestibular da UEL, no domingo. Ana é uma espécie de confidente de Margarete. Foi Ana, nos quatro dias de provas, a primeira a saber das expectativas de Margarete ao final de cada gabarito preenchido.
- Em química e biologia eu fui bem. Redação foi chato o tema.
Foi o segundo vestibular de Margarete. O primeiro, em Bauru (SP), valeu a aprovação para odontologia. O pai, na verdade, queria que a menina fizesse turismo. Mas como se estivesse fazendo eco ao apelo de Ana, sobre aquela história de que a pessoa precisa fazer o que gosta, Margarete passou longe da escola de Bauru e resistiu ao desejo do pai. Quer mesmo medicina e já reflete em sua opinião um pouco do que aprendeu com Ana:
- Medicina ainda tem um bom mercado de trabalho para o bom profissional. Quero ter o meu consultório. E se quando estiver trabalhando aparecer no meu consultório alguém que precise de atendimento e não possa pagar, é claro que eu vou atender.
PERFIL
Nome: Ana Elizabete Pedrosa Cavalcante Catarino
Formação universitária: relações públicas
Profissão: artesã
Idealismo: Estar fora do sistema





