As mãos calejadas do agricultor Claudecir Zanon são as mesmas mãos que transformam folhas de jornal em arte. Ao ver a delicadeza e precisão de seu trabalho é impossível não ficar admirado. Até porque ele, que sempre esteve na roça, onde a força é imprescindível, também nunca estudou nada a respeito. E aí que está a graça da coisa: seu talento nos faz acreditar que dom existe mesmo, independente do rumo que a vida tenha levado.
De família simples, Zanon começou a trabalhar na pequena propriedade da família, em Sertanópolis (Norte), ainda adolescente. Apesar da pouca idade, teve de assumir a missão de cuidar dos 13 alqueires de soja e milho quando o pai veio a falecer alguns anos depois. ''Faço de tudo sozinho, desde o plantio até passar defensivo agrícola. Só a colheita que terceirizo o serviço'', conta.
Com os anos, casou-se, teve filhos, e a vida na roça tornou-se obrigatória e seu ganha-pão. Até mesmo por isso, a responsabilidade sempre esteve à frente de qualquer hobby. Só que, em 2006, com seus 48 anos, cansado de não ter o que fazer nos dias em que chovia quando, portanto, não podia ir ao sítio, resolveu dar asas à criatividade. ''Já tinha lido a respeito da técnica do rolinho de papel de jornal e usei como base para meu trabalho.''
Nascia, então, sua primeira obra, que ele diz não dar ou vender em hipótese alguma: um quadro com uma espécie de mandala ao centro. O que mais chama a atenção são os cuidados com os detalhes que resultam em transformação. De longe parece uma obra em madeira. E exatamente sobre isso ele não não abre o jogo. ''Uso um produto para dar esse tom de madeira envelhecida'', esquiva-se brincando.
Depois dessa tentativa com êxito, outras vieram ainda melhor. De lá para cá, o agricultor acumula vários trabalhos e criações tendo sempre o jornal como matéria-prima. ''Gosto da FOLHA para fazer os móveis porque o papel é mais resistente'', conta ele, mostrando vasos, bolas de decoração, caixas, quadros e mandalas. E, como tudo começa com um rolinho de jornal, a leitura acaba sendo inevitável. ''Enquanto estou trabalhando vejo as matérias. Se tem algo interessante, guardo para ler depois com calma.''
O melhor de tudo é que o talento restrito à família durante algum tempo hoje já começa a ser compartilhado e admirado por pessoas do ramo. ''Dizem que o que faço é artes plásticas. Não sei se é, faço apenas por prazer. Até porque não vivo disso'', revela Zanon, que está com uma exposição de suas obras no Espaço Cultural Ceddo (Rua Pernambuco, 725) até o dia 11 de fevereiro.
E não para por aí: de agricultor artista deu passos ainda maiores. Integrante da ONG Associação de Proteção da Arte e Cultura (Apac), ministrou aulas de artesanato. ''Ensinei a técnica e o restante os alunos tiveram que criar. Gostei da experiência, mas não tenho tempo para me dedicar, já que lecionava apenas nos dias em que não dava para ir ao sítio'', diz.

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