Apucarana - As cortinas se abrem, o espetáculo começa e por mais de uma hora e meia o público viaja para um outro mundo, é surpreendido, se encanta, sorri, chora e, principalmente, compreende que no universo das artes não existem limites; e que qualquer tipo de deficiência física ou intelectual é só um desafio a mais para tornar o espetáculo ainda mais lindo. Esta foi a sensação que tomou conta das centenas de pessoas que participaram e assistiram nesta semana o 9º Festival Regional Nossa Arte, realizado no Cine Teatro Fênix, em Apucarana (Centro-Norte).
O evento é uma realização do Conselho Regional de Apucarana, composto por 15 Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apaes), e reuniu cerca de 300 pessoas entre artistas especiais, profissionais da Educação Especial, autoridades e público. Foram realizadas apresentações de quatro gêneros: dança; dança folclórica; artes cênicas e artes musicais.
Dulcinéia Sinkoc, de 31 anos, é aluna da Apae de Califórnia (Centro-Norte) e a primeira artista a se apresentar. Em meio a fumaça colorida, fitas e arcos, a aluna, que tem Síndrome de Down, mostrou toda a sua paixão pela dança e emocionou quem acompanhava a apresentação. Como a irmã Laura Sinkoc de Assis.
"Ficamos muito felizes e orgulhosos. Sempre que posso, acompanho as apresentações, para incentivar ainda mais sua dedicação pela dança", destaca Laura, que é professora. Dulcinéia dança desde os 3 anos, quando a mãe a matriculou na Apae de Apucarana - na época, Califórnia não tinha uma Apae.
A professora conta que a irmã realiza todas as atividades como qualquer outra garota sem síndrome. Segundo ela, tudo é resultado do esforço de Dulcinéia e também da mãe, que sempre estimulou o desenvolvimento da menina.
"Na época ainda não se sabia muito da doença, mas eu me lembro da médica dizendo que minha irmã dependeria da gente para tudo, andar, comer, ir ao banheiro, que teria uma vida muito restrita", revela Laura. "Mas minha mãe não desistiu e hoje ela é esse milagre em nossa vida."
Ao final da apresentação, Dulcinéia era só alegria. "Deu tudo certo, estou feliz. Não existe nada que eu goste de fazer mais do que isso. Quero continuar dançando até o fim da minha vida."
Próximo de Dulcinéia, Alex Ferragine, de 18, aluno da Apae de Cambira (Região Metropolitana de Maringá), se preparava para entrar no palco. "Estou ansioso, ensaiei bastante, mas sempre dá um friozinho na barriga e é até gostosa essa sensação", comentou o dançarino. Alex nasceu com deficiência intelectual e dança desde os oito anos por incentivo da família.
Com as aulas, a professora de Artes do jovem, Cláudia Mara Moretti, explica que Ferragine desenvolveu a expressão corporal, a coordenação motora, a comunicação e até a autoestima. "Hoje, a gente percebe que o Alex está mais comunicativo, seguro e sociável", destaca. "Ele diz que o grupo é como se fosse uma segunda família."
A coordenadora artística do evento, Josicléia de Oliveira, explica o objetivo do festival é exatamente este, incluir e integrar as pessoas com deficiência. Segundo ela, através da atividade, as crianças, adolescentes e adultos com as mais diversas deficiências intelectuais e físicas se desenvolvem de fato. "No dia a dia, a gente percebe que é um estímulo à aprendizagem, que oportuniza atividades de lazer, terapia e expressão corporal", salienta.
"É difícil descrever o tamanho da alegria que toma conta da gente quando nos apresentamos. Me sinto importante, um artista mesmo, capaz de expressar com o corpo tudo o que está em minha mente", relata José Antônio da Silva, de 18, que tem deficiência intelectual e é aluno da Apae de Faxinal (Vale do Ivaí). Com os colegas, ele realizou uma das apresentações de hip hop.
A dona de casa Edna Mendes Tavares, de Apucarana, assistiu às apresentações ao lado do filho de 18 anos, que tem deficiência intelectual. Ela leva o jovem para vários espetáculos, com o objetivo que perceba que não há limites para quem tem um sonho. "Ele ainda não descobriu uma atividade que goste muito de fazer, mas tenho vontade de despertar isso nele."
Os vencedores do festival foram: a Apae de Cambira, com a apresentação "O Outro Eu - Ecos da Alma", no gênero dança; alunos da Apae de Kaloré (Vale do Ivaí), com "Carimbó", no dança folclórica; grupo da Apae de Cambira, com "Viagens do Inconsciente", nas artes cênicas; e Apae de Apucarana, com "Música do futuro", no artes musicais. Eles receberam troféus e medalhas e participam agora do Festival Estadual, de 27 a 31 de maio, em União da Vitória.

Arte para incluir pessoas com deficiência
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