Na infância, a bióloga Maria Clarice Nunes, 31 anos, nunca teve uma boneca negra. Até mesmo pela dificuldade de encontrar o brinquedo no mercado. Recentemente, ela materializou um sonho só realizado depois de adulta: aprendeu a fabricar com retalhos de pano uma boneca que representa um bebê negro. ''Já adulta, tive uma boneca negra. Mas fiquei emocionada com a possibilidade de fabricá-la'', revela.
Maria Clarice foi uma das 35 participantes da Oficina de Bonecas Negras, ministrada pela artesã Sônia Santos, do Rio de Janeiro, como parte da programação comemorativa da 18 Semana Zumbi dos Palmares, promovida pelo Conselho Municipal da Comunidade Negra e de entidades negras de Londrina. ''Nossa população é na maioria negra e existe uma história trágica em relação à população negra que ainda persiste. Por isso, a boneca negra é um objeto de referência para fortalecer a auto-estima'', avalia Sônia.
A fabricação desse tipo de bonecas, chamadas abayomi em yorubá, meu presente (momento) teve início no Rio de Janeiro com a artesã Lena Martins. A partir das bonecas, foi criada a Cooperativa Abayomi que, desde 21 de dezembro de 1988, reúne educadoras sociais, artistas, circenses, terapeutas, artesãs e psicólogas. O mote principal é o uso de material reciclado para fazer arte.
O artesanato é feito somente com retalhos dobrados e enrolados, sem uso de cola. ''A produção é toda ritualizada, durante a oficina discutimos elementos da cultura popular'', detalha.
''O bebê Abayomi é apenas o fio condutor para diversas questões como o reaproveitamento de sobras de tecido, a contribuição para o reconhecimento da identidade afro-brasileira e a estimulação à reflexão sobre sexismo, racismo e violência'', destaca.
Atualmente, as bonecas Abayomi são vendidas em 15 lojas em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte (MG). A renda é usada para financiar os outros projetos da cooperativa, como Exposição de Retalhos do Brasil, Cortejo Brincante, Vivência Lúdica e Treinamento para Geração de Renda.
''Este é o objetivo: fazer com que o negro tenha um objeto de referência. É preciso ter uma autoimagem na professora, no político, no médico e até nos objetos como a boneca'', salienta Sônia Santos. ''É bom ver que quase todos somos negros, até uma pessoa aparentemente branca'', completa.

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