Arrogância em marcha-ré
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de janeiro de 2002
Ranulfo Pedreiro 
O sinal avermelhou, a pick-up tentou passar mas se arrependeu no meio do caminho. Lembrou dos pardais, as tais câmeras que estão em algumas ruas da cidade fotografando infratores. A recordação doeu no bolso e o motorista engatou a ré para se encaixar atrás da faixa de pedestres onde deveria estar desde o começo desta crônica.
Luzes brancas acesas, a traseira da caminhonete importada dessas que valem um apartamento encontrou um fusca. Ainda pensando no pardal, o motorista do carrão sentiu o choque. Automaticamente, virou-se para reclamar:
O que você está fazendo aí, caramba?
Parado no vermelho, como todos deveriam respondeu o do fusca.
Mas com essa lata velha?
É velha mas respeita sinal.
O intransigente desceu para ver se a caminhonete havia amassado. Havia. O fusca, intacto. Com a irritação, veio a idéia de inverter os papéis, apelando para a velha máxima do volante:
Você não viu que eu estava vindo, pô? Quem bate atrás é que está errado!
Eu só parei no sinal vermelho.
Olha que eu ligo para meu advogado!
E eu chamo o trânsito.
A discussão já provocava engarrafamento e buzinaço. Em segundos, o motorista da pick-up calculou o prejuízo, a multa, a bronca do guarda, o tempo perdido e a confusão criada. Entrou no automóvel e arrancou bruscamente, o sinal vermelho outra vez, a traseira amassada, fazendo curva sem ligar seta, fotografado pelo pardal.
Foi-se nervoso, escravo da própria arrogância.
Sem prejuízo material ou moral, o fusca aguardou o verde.


