Arrastão noturno leva flanelinhas de volta para casa
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quinta-feira, 17 de julho de 1997
Lucília Okamura Londrina 
César AugustoPrimeiro contatoMenor é abordado pela equipe: ação nos pontos de mendicânciaÔ tio, eu vim parar aqui por engano. Eu ia pra casa da minha avó e peguei o ônibus errado. Foi com essa desculpa que A., 10 anos, e a maioria dos seus colegas tentaram se livrar dos comissários de menores e policiais militares que deflagraram anteontem à noite uma operação promovida pelo Conselho Tutelar, a Vara de Infância e Juventude, o Ministério Público e a Secretaria Municipal de Ação Social para retirar das ruas de Londrina crianças e adolescentes em situação de risco.
Planejada para evitar que a situação escape definitivamente do controle, conforme receio do próprio Conselho Tutelar, o primeiro arrastão teve como alvo os menores que ocupam os principais pontos da área central de Londrina no ofício de pedir esmolas ou atuar como flanelinhas (guardadores de carros). E foi acompanhada de perto pela reportagem da Folha.
César AugustoGeralRevista em garoto apreendido: PM acompanha a operação noturna
O procedimento seguiria o seguinte roteiro: os menores apreendidos seriam encaminhados ao Conselho Tutelar e, depois de triados, seriam entregues às suas famílias (no casos das crianças e adolescentes de Londrina) ou levadas à uma casa-abrigo (para os de fora da Cidade).
O trabalho teve início na Feira da Lua, realizada todas as quartas-feiras no Zerão. Poucos minutos após os PMs vistoriarem o local, S., 17 anos, morador do jardim Leonor (zona oeste), é pego pelos PMs por estar cuidando de carros. Ele afirma não saber que é proibido trabalhar como flanelinha e conta que consegue tirar entre R$ 15,00 e R$ 20,00 por noite. Durante o dia faço uns bicos, conta. S. informa que mora com os pais e que parou de estudar na 4ª série.
Alegando estar desempregado, S. dá a entender que pretende voltar às ruas para trabalhar como flanelinha, mesmo depois de ser entregue à família. Não tem outro jeito. Após ser revistado por PMs, o menor é colocado em uma das três viaturas da Polícia Militar que acompanha o arrastão.
Um menino índio, R., de 10 anos, também é apreendido na Feira da Lua por estar pedindo esmolas. Aparentando estar bastante assustado, o garoto conversa pouco e diz que é a primeira vez que mendiga em Londrina. Ele mora com uma tia em Tamarana e afirma que pretendia ir embora naquela mesma noite, de ônibus.
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O arrastão prossegue por outros pontos, como avenida Bandeirantes, perto do Hospital Evangélico - onde outros menores são apreendidos - e na avenida Rio de Janeiro, entre as ruas Piauí e Pará. Os garotos não oferecem resistência. A exceção ocorreu na Concha Acústica, onde um grupo de quatro meninos, aparentando entre oito e 10 anos, correu quando viu a PM chegando. Três deles foram pegos.
Na Concha Acústica, também foi apreendido o garoto L.P., de 8 anos. Ele é a criança mais nova abordada durante todo o arrastão de anteontem. L.P. confessa que cuida de carros à noite, mas ressalta que estuda à tarde. Diz que mora no jardim Santa Fé (zona leste) e leva todo o dinheiro que ganha para a sua mãe. Senão ela me bate, justifica. O garoto diz tirar R$ 5,00 por noite.
Em três horas de arrastão, as viaturas ficam cheias: os comissários e os policiais conseguem apreender 29 crianças e adolescentes - o Conselho Tutelar considera criança menor até 12 anos. Do total, 19 são de Londrina e foram encaminhados de volta às suas famílias. Outros 10 menores passaram a noite em casas-abrigo, por serem de outras cidades ou por estarem morando na rua há muito tempo. Dois menores são de Cambé, um de Arapongas, dois de Santo Antônio da Platina e três de Sarandi.


