Arquitetura hostil
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
Celso Felizardo<br>Reportagem Local 
Londrina À espera da abertura do comércio no centro de Londrina, por volta das 7h30, as cabeleireiras Camila Oliveira e Flavelaine Santos, ambas de 24 anos, conversavam sentadas sob a marquise de uma agência bancária no Calçadão. O desconforto era visível. Os livros grossos eram usados como almofadas sobre as pequenas grades de ferro onduladas instaladas em frente à grande porta de vidro. São dispositivos pensados para evitar a aglomeração de pessoas e a presença de moradores de rua. Como estes, existem centenas espalhados pela cidade, principalmente nas áreas comerciais.
O modismo que surgiu nos anos 1990 e se intensificou na década passada é alvo de críticas de especialistas. Para o arquiteto e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Antônio Carlos Zani, os efeitos são ruins tanto no ponto de vista estético como social. "As cidades estão cada vez mais tomadas por essa prática de exclusão, que muitas vezes se apodera de espaços públicos ou, em casos mais graves, é promovida pelo próprio poder público", critica. Em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, o conceito definido como "arquitetura antimendigo" tem recebido duras críticas.
Em Londrina, onde aproximadamente 300 pessoas vivem nas ruas, segundo dados da Secretaria Municipal de Assistência Social, as regiões da Concha Acústica, Calçadão e Terminal Central são as que mais registram presença da chamada "população em situação de rua". Nessas áreas, as armações de ferro triangulares ou, espetos, em casos mais rústicos, já se incorporaram à paisagem urbana. Lojas, agências bancárias e prédios residenciais adotaram o design hostil que garante o direito de ir e vir, mas que exclui o de parar.
Os comerciantes justificam que a instalação das ferragens é primeiramente uma questão de segurança, porém alguns admitem querer deixar a vitrine à vista. "Depois da Lei da Cidade Limpa, a vitrine é nosso único espaço de publicidade. Se as pessoas sentarem em frente fica complicado de expor os produtos", declarou um comerciante que preferiu não se identificar. Silvana Martins, gerente de uma loja de autopeças na Avenida Duque de Caxias, também aderiu à controversa grade ondulada. "As pessoas sentavam ali e deixavam lixo, resto de comida. Agora não tem mais isso. Não é a melhor das alternativas, mas foi a única que surtiu efeito."
Para Zani, ao embrutecer o ambiente e promover privações, os donos dos estabelecimentos correm o risco de afastar as pessoas. "É uma exclusão perigosa porque quem não consome hoje pode vir a consumir amanhã", alerta. "Pessoas de diferentes grupos sociais devem ter o direito de circular e parar para interagir, afinal a rua é um espaço público, por mais incômodo que isso seja para alguns."
O arquiteto observa que na mesma velocidade que novos obstáculos são criados também são superados. "Tanto os moradores de rua que procuram abrigo quanto as pessoas que querem aproveitar o espaço urbano encontram um jeitinho para se desvincilhar dessas barreiras arquitetônicas." No caso da cabeleireira Camila, um livro foi a solução. "Não acho certo colocar esses ferros. Às vezes a pessoa quer parar um pouco para descansar. O que há de errado nisso?", questiona.
A aposentada Alaíde Pereira Viana, de 57 anos, moradora de Porecatu (Região Metropolitana de Londrina) encontrou um espaço sem grades para se sentar na soleira de uma grande loja de departamentos no centro. Ao lado amiga Fabiana Batista da Silva, de 25 anos, criticou esse tipo de medida. "Vai chegar uma hora que vai ter grades em todos os lugares. Enquanto isso não acontece, a gente aproveita para descansar um pouco. Daqui a pouco vamos andar bastante", afirma.


