Arquitetura expulsa população de rua
Arquitetura expulsa população de rua
Querosene queimado, grades pontiagudas e construções em declive são cada vez mais usados para evitar a presença de mendigos
A cidade não
permite mais
espaços abertos,
diz síndica
Israel Reinstein
Albari RosaDeitar para dormir embaixo das marquises do Centro de Curitiba não é mais seguro. Pelo menos é o que pensa o mendigo José Ubirajara Guimarães, 54 anos. Morando há alguns anos na rua, ele diz que começam a surgir na cidade mecanismos que servem para afugentar os mendigos. Querosene queimado e derramado, grades pontiagudas ou construção de declives sob viadutos são algumas das maneiras que a população vem usando para espantar o morador de rua.
Albari RosaO mendigo Ubirajara Guimarães reclama que a vida nas ruas já não é mais a mesma. Uma série de mecanismos está sendo usada para afugentar quem dependia das marquises para passar a noite. O zelador Antônio Wenceslau Braz, por seu lado, não gostava de limpar a frente do Edifício Itália todos os dias. Ficava tudo cheio de papelão, com cheiro de urina, diz.
Essa arquitetura anti-mendigo está tomando conta de prédios públicos e particulares, igrejas e viadutos, fechados com grades ou telas. O principal motivo é a falta de segurança. Além da sujeira que essa gente traz, reclama o vigia João Gilberto, que trabalha no prédio suspenso sobre a Travessa da Lapa, por baixo do qual passam ônibus. No local, já existem planos de fechar a passagem e colocar telas nos vãos.
O processo não é novo. Um dos primeiros prédios a usar o sistema de exclusão foi o que abriga a Sinagoga Francisco Frischmann. Ao lado da Praça Santos Dumont, o prédio foi modificado há mais de dez anos. Um antigo jardim subiu para um espaço suspenso, e os vãos da janela foram fechados.
Na Catedral Basílica de Curitiba acontece a mesma coisa. Na estreita rua calçada que passa atrás da igreja foram colocadas grades e instalado um mercadinho, evitando que voltassem os mendigos que se abrigavam por ali. O jardim em torno da igreja foi cercado.
Muros - A cidade não permite mais a existência de locais abertos, diz a síndica do Edíficio Itália, Dora Quesada Polo. Há sete meses, seu prédio, que fica no começo da Rua Cruz Machado, passou a contar com grades de mais de dois metros e meio, protegendo um pequeno jardim. Antes era tudo aberto, mas aí começou a surgir uma leva de jovens e adultos que dormiam no jardim, conta.
Todas as manhãs, o vigia do Edifício Itália, Antônio Wenceslau Braz, era obrigado a limpar o local. Ficava tudo cheio de papelão, com fezes e cheiro de urina, diz. No começo, era apenas uma ou duas pessoas. Depois foi crescendo o dormitório, com até sete pessoas. Até que ficou perigoso, com assaltos aos moradores, diz o porteiro.
A síndica do prédio conta que os trombadinhas juntavam-se aos mendigos fingindo dormir. Depois, pulavam na gente de surpresa tentando levar alguma coisa. A decisão do condomínio foi fechar tudo. Preferimos perder em estética e optar pela segurança da vida de cada morador, afirma.
Essa mesma situação fez com que a direção do prédio da Copel, que fica na Rua Pedro Ivo, colocasse grades na marquise, que dava de frente a uma janela de vidro. Segundo conta o vigia Edson Silveira, há um ano era comum ver crianças e adultos estirados em frente à janela. O resultado é que os vigias noturnos eram obrigados a acordar os dorminhocos na madrugada. Os guardas queriam evitar que os diretores vissem os mendigos dormindo no local. Mas o cheiro que eles deixavam era muito forte, porque muitos faziam suas necessidades ali mesmo, conta.
Também na porta do INSS, na esquina da Rua João Negrão com a XV de Novembro, existem grades que impedem a presença de pessoas sob a marquise. Uma grade em forma de triângulo impede a presença de candidatos a uma soneca. Ali na frente do cursinho na João Negrão (o Expoente), têm grades que não nos deixam dormir, diz o mendigo Tiago Rogério, que está na cidade há seis anos. Com grades pontiagudas e outras no chão, o cursinho ainda conta com um vigia que expulsa os mendigos do local.





