Arquitetura e Urbanismo da UEL completa 40 anos
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quinta-feira, 17 de outubro de 2019
Laís Taine - Grupo Folha 

A década de 1980 foi a primeira a registrar queda na taxa de população rural de Londrina, enquanto a urbana crescia 63%, somando 300 mil habitantes no total. Nesse período, o curso de arquitetura e urbanismo da UEL (Universidade Estadual de Londrina) já estava formado para dar assistência ao novo modelo de cidade que Londrina viria a ser, repleta de arranha-céus, verticalizada, grandes avenidas e movimento. Em 40 anos, o curso demonstra aproximação com a história da cidade e como a formação de bons profissionais podem trazer resultados que atravessam fronteiras.
A proposta apresentada por Edgar Graeff era inovadora e tinha sido testada pela PUC (Pontifícia Universidade Católica), de Goiânia-GO. Inovadora, mas exigia estrutura, coragem e transformações. “Lá era um sistema seriado, nós aqui éramos em créditos e os departamentos ficavam distantes. Lembro de conversar, propor disciplinas integradas, onde dentro da sala de aula tivesse arquiteto, engenheiro, artista plástico... Isso significava uma dificuldade operacional, até por conta da carga horária, conteúdos programados em conjunto, então houve essa resistência”, recorda Nelson Schietti de Giácomo, que participou da comissão de implantação do curso instituída pelo reitor em 1978.
Outra questão envolvia a discussão, o momento político. “Lembro que fomos em um grupo de seis arquitetos a Goiânia para conhecer o modelo e foi exatamente na mudança de governo. Era o Geisel, entrou o Figueiredo, então a universidade estava resistente a muita conversa, a própria reitoria também não enxergava e não queria grandes mudanças”, relembra.
NORTE DO PARANÁ
Com a adaptação, o curso foi implantado em 1979 atrelado ao de engenharia civil, que só tinha seis anos, até ser criado o CTU (Centro de Tecnologia e Urbanismo), aproximadamente cinco anos depois, instituindo um departamento exclusivo à nova área. "Teve um movimento muito grande da sociedade de fora, porque as pessoas queriam um curso de arquitetura. Era o terceiro curso do Paraná, só tinha a UFPR (Universidade Federal do Paraná) e a PUC”, acrescenta Antônio Carlos Zani, professor no curso desde 1982.
“Nosso compromisso é regional, se pegar a fundação da nossa universidade, vai coincidir com as transformações que ocorrem entre 1975 e 1980”, ressalta o professor Fausto Lima. Ele recorda um dos projetos em que se discutia a ligação entre Londrina e Maringá. “A abordagem do problema urbano de 1984, a gente discutindo o Metronor (Metrópole Linear Norte do Paraná), que era um projeto pioneiro. A gente trabalhou os planos diretores em pequenas cidades aqui em volta para entender a complexidade que existe nas relações espaciais do Norte do Paraná”, explica.
Lima afirma que o curso teve impacto no desenvolvimento e espaço urbano da cidade, como a fundação do Ippul (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina), estudo do plano diretor de diversas cidades da região, reformas de museus, ONGs, creches e igrejas, discussão sobre projetos e obras públicas, como projeto de extensão que providenciava plantas gratuitamente para população baixa renda.
E também saíram em defesa de várias causas da cidade, como recorda o professor Zani. “Uma vez, uma empresa grande da cidade queria fazer um shopping onde é o aterro Lago Igapó. Se não fossem nossos alunos se manifestarem, ir lá brigar, talvez seria diferente”, comenta. “Quando falaram que iriam derrubar o Cadeião, saímos eu e o Marcos Barnabé (professor) daqui com um monte de aluno para lá e abraçamos, não deixamos derrubar”, acrescenta.
PARA FORA
Mas os efeitos não ficaram restritos no entorno. Vários alunos saíram da universidade para explorar o mundo com seus projetos que passam pelo Japão, Dubai e Alemanha. “O curso deu muitos frutos, você vai ver ex-alunos nossos professores, pesquisadores e profissionais em vários países e em universidades federais”, comenta Zani.
Alguns são famosos, como o arquiteto apresentador do programa Decora, no canal GNT, Maurício Arruda, entre vários outros que se destacam no Brasil e no mundo. “Trabalhando também com grandes arquitetos do mundo todo, como Norman Foster e na prefeitura de Nova York”, relembra o professor.
Nesses 40 anos, a UEL formou 2,4 mil arquitetos em 80 turmas. “Você começa a ver que todos esses profissionais que já saíram, por que conseguiram se fixar no mercado? Porque, na verdade, a universidade possibilitou isso, tinha bons professores que se relacionavam bem com os alunos. Então, o resultado que se vê nesses 40 anos é de que o curso formou bons docentes, bons profissionais e bons pesquisadores”, conclui Zani.
HOMENAGEM
Em comemoração aos 40 anos, o departamento vai homenagear os professores pioneiros do curso e promover palestra com o arquiteto e professor da USP, Álvaro Puntoni. O evento será realizado no dia 18 de outubro, às 19h, no Anfiteatro do Cesa (Centro de Estudos Sociais Aplicados).
MUDANÇAS
Desde a implantação do curso de arquitetura e urbanismo na UEL, há 40 anos, até hoje muita coisa mudou. “Agora tem muitas especializações. Antigamente, ninguém falava em luminotécnica, interiores, eram coisas bastante integradas, hoje pode ter diversas vertentes, desde planejamento urbano, tecnologia, cenografia, paisagismo e isso muito até em função dos próprios materiais que também se diversificaram”, recorda Teva Silva Yllana, que foi aluna do curso e atua como professora há 24 anos.
Não só os materiais, as ferramentas também mudaram. Régua, nanquim, jogo de esquadros, compasso, lápis, normógrafo, tudo era utilizado para a produção no papel. Relembrar os itens arrancou risos saudosos dos professores. “Antigamente, um escritório tinha que ter um espaço imenso para guardar tudo”, conta um. “Tinha que ter uma equipe de desenhista, um escritório tinha 10, 15 desenhistas”, acrescenta outro. “Maquete era só física”, acrescentam. Hoje é tudo digital.
ALUNOS
A didática também precisou ser adaptada à nova geração. “O jeito de dar aula mudou muito, com metodologia ativa, o professor tradicional que chegar lá na frente e fica transmitindo conteúdo para o aluno... Ele não fica te escutando mais”, menciona a professora Ana Virgínia Sampaio. Para essa transformação, a universidade conta com o Gepe (Grupo de Ensino e Pesquisa Educacional), promovendo atualização dos professores.
Essa ação foi fundamental para a formulação do novo projeto pedagógico, que será implantando no próximo ano. “Foi interessante para mudar o projeto com essa visão nova, em que o aluno participa e não recebe a informação passivamente”, acrescenta.
A atenção à maneira de se dar aula vem de muito antes, quando em 1999 o curso firmou parceria por meio de convênio com a Fausp (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo) para o mestrado interinstitucional, que permitiu qualificar a maior parte do corpo docente que ainda não tinha feito o mestrado. A partir disso, foi montada a especialização. Em 2010, o curso ganhou um mestrado e, no ano passado, passou a ter o único doutorado em arquitetura do Paraná. A primeira turma tinha 30 alunos, atualmente o departamento oferece 60 vagas anualmente.
PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO
Da segunda turma do curso de arquitetura e urbanismo da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Ivanóe De Cunto, 57, se tornou professor. Nesses 40 anos acompanhando a história pelos dois vieses, tem visão crítica e prevê mudanças essenciais para que a formação acompanhe as evoluções da sociedade. “Eu tomava dois ônibus, morava no bairro Aeroporto e como a gente usava aquela régua T, os esquadros grandes, vinha espetando todo mundo, uma situação complicada”, recorda com bom humor. Nesse processo, acompanhou as mudanças sociais e estruturais que alteraram as formas de ensinar arquitetura.
Atualmente, coordenador do colegiado, lembra dos primeiros anos do curso há 40 anos e aponta as mudanças que são necessárias para que o ensino se mantenha atualizado. “A primeira turma sofreu em alguns momentos, a maioria dos professores era profissional da área, não tinha formação acadêmica; no início aconteceram muitas brigas, mas quando nós saímos o curso já tinha uma estrutura extremamente organizada”, afirma.
Agora, continua o processo de transformação com a ajuda dos colegas da área. Em 2020, uma nova proposta pedagógica promete trazer mais tecnologia aos alunos e proporcionar que tenham habilidades com ferramentas importantes para a profissão. “O projeto pedagógico era muito antigo, mas sobreviveu muito bem esses anos porque tinha qualidade, ele sofreu pequenas mudanças. Então, eu acho que vai ser um grande ganho para os que vão entrar no curso no ano que vem”, revela.


