'Arquitetura do possível' põe em risco moradores
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sexta-feira, 12 de dezembro de 2003
Janaina Garcia<br>Reportagem Local 
Aos 59 anos, o sorveteiro Benedito Garcia de Oliveira se orgulha da casa construída por ele próprio no Jardim São Jorge (Zona Norte), um dos mais pobres de Londrina. Hoje, com os pés machucados pelas longas andanças em busca de clientes e cheios de alergia aos materiais de construção, ele reconhece que a tarefa não tem sido nada fácil ainda mais com uma renda mensal inferior a um salário mínimo. Sem registro em carteira de trabalho, as dificuldades são ainda maiores: ''O pouquinho que eu consigo comprar só pode ser feito à vista, e ainda assim nas lojas pequenas daqui da redondeza'', conta.
Basta entrar na casa de Oliveira para notar alguns problemas de edificação que, além de deixarem o ambiente escuro e abafado, pela falta de janelas e portas para ventilação, ainda colocam em risco todo o pouco material que ele compra para terminar a obra. O desnível da casa em relação à rua é bastante acentuado. Em caso de chuva forte, pode colocá-la em risco eminente de inundação. Nas precipitações da semana passada, ele perdeu montes de areia e pedra.
Assim como o sorveteiro, mas em esquema de mutirão, dezenas de outros homens e mulheres do bairro unem-se aos finais de semana para construírem, a seu modo e com o que têm à mão, os substitutos dos precários barracos. Adeptos da chamada ''Arquitetura do Possível'', como essa iniciativa é denominada por teóricos da área, eles lançam mão de materiais reaproveitados e erguem casas simples, mas, em muitos casos, com estruturas frágeis que colocam em risco a segurança de famílias inteiras.
Na tentativa de assessorar tecnicamente o grupo, uma equipe de alunos do curso de arquitetura e urbanismo da Universidade Norte do Paraná (Unopar) tem feito visitas semanais nos últimos oito meses (e seguem até outubro de 2004). Eles desenvolvem um estudo sobre o mobiliário urbano da região (tais como praças equipadas, lixeiras, telefones públicos e pontos de ônibus) e a relação de exclusão do bairro com o restante do município.
O trabalho tem revelado dados alarmantes. ''Constatamos que, para uma população de aproximadamente 8 mil pessoas, o São Jorge possui somente um ponto de ônibus, três telefones públicos e uma praça que não cumpre sua função de lazer, ou seja, não tem praticamente nada, nem bancos'', afirma o estudante de quarto ano Thiago Zani, de 21 anos.
O coordenador do projeto, professor de sociologia urbana João Batista Filho, adverte para um aspecto negativo que chama a atenção: ''A maioria dos moradores aqui não recebe salário algum. Das 46 famílias que pesquisamos as quais possuem, em média, seis membros cada uma somente 8% têm um rendimento mensal de até três salários mínimos'', destaca. Ele conclui: ''O Ministério e o Estatuto das Cidades regulamentam que os governos priorizem a moradia popular. Pelo que analisamos, contudo, dá para perceber que, após seis anos em que esse bairro existe, a estrutura habitacional do município ainda não é capaz de o atender adequadamente'', assevera.
Entre os principais problemas encontrados nas construções de fiação elétrica a falta de ventilação , Zani se lembra particularmente de um. ''Chegamos a uma casa que não tinha uma viga sequer. Isso põe todos os habitantes dela em risco, uma vez que está em xeque a sustentação'', frisa.
Na pesquisa, detectou-se ainda a inexistência de postos de saúde e farmácias próximas.''Quando as pessoas aqui precisam de atendimento médico, têm de caminhar pelo menos dois quilômetros para conseguir um posto que nem é 24 horas. Farmácias, só na Avenida Saul Elkind, que também não é tão próxima'', aponta o presidente da Federação de Assentados e Sem-teto de Londrina e Região, José Ricardo da Silva, 56.
Caminhando por uma das ruas recém-asfaltadas do bairro, não é difícil encontrar gente reclamando da infra-estrutura, especialmente quanto ao desnível do solo da rua em relação às moradias, praticamente escondidas por detrás dos portões. ''Minha casa já inundou pelo menos uns 60 centímetros na última chuvarada que deu'', queixa-se a dona-de-casa Luciléia Sérgio da Silva, de 23 anos. Vizinha dela, a mãe Maria Aparecida Satagova, 43, ironiza: ''Tiraram o Lago Igapó do Centro e puseram aqui''.


