Silvana Leão
De Londrina
As construções que retratam a história de Londrina não contam com legislação específica que a protejam e, por isso, muitas correm o risco de serem demolidas do dia para a noite, como acontece atualmente com casas de madeira da época da colonização. Recentemente, uma destas construções, localizada na Rua Bahia, 425 (centro), ‘‘sumiu’’ de repente, sem que se pudesse fazer qualquer coisa em nome da preservação (ver matéria nesta página). A sensação, alertam alguns profissionais, é de estarmos perdendo nossa identidade cultural.
A recente polêmica sobre a possibilidade de demolição da antiga ‘‘casa dos padres’’, onde funciona atualmente o Colégio São Paulo, na área central, é mais um exemplo da falta de amparo legal no que se refere ao assunto, e mostra, na opinião do arquiteto Humberto Yamaki, ‘‘a necessidade de se repensar em Londrina a questão do patrimônio construído’’.
Atualmente só há três prédios tombados em Londrina: a antiga rodoviária (atual Museu de Arte de Londrina), a Praça Rocha Pombo e o Teatro Ouro Verde. Os vereadores Jaci Aguiar e Jorge Scaff (ambos do PDT) apresentaram, recentemente, projeto de lei pedindo o tombamento da casa que abrigou os primeiros padres de Londrina. O projeto está tramitando nas comissões da Câmara.
Humberto Yamaki, que é membro consultor do Conselho Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico do Paraná e presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) em Londrina, defende a elaboração de um levantamento oficial de reconhecimento e indicação de edificações de interesse à preservação. Desta listagem, fariam parte todas as construções que apresentem algum valor histórico, arquitetônico ou relacionado à técnica construtiva.
Estas características seriam analisadas isoladamente ou em conjunto, já que, de acordo com o arquiteto, são comuns os casos em que uma edificação aparentemente simples ganha nova dimensão ao ser analisada ao lado de outras. Um dos exemplos mais marcantes é o do município de Antonio Prado, no Rio Grande do Sul, onde 47 edificações de madeira localizadas na área central da cidade por imigrantes italianos no final do século passado foram tombadas pelo Patrimônio Histórico Nacional.
Analisadas sozinhas, as casinhas de Antonio Prado parecem não apresentar nada de extraordinário, mas no conjunto, tornou-se o mais significativo acervo da arquitetura urbana da imigração italiana no Brasil. E os gaúchos levam tão a sério a preservação que os atuais projetos desenvolvidos na cidade seguem a mesma linha arquitetônica das primeiras construções.
Em Londrina, Humberto Yamaki esclarece que não seria necessário o tombamento de todas as casas construídas na época da colonização, mas apenas que estas edificações recebessem atenção especial e tivessem a seu favor mecanismos – como vantagens em relação a pagamentos de impostos – que estimulassem a manutenção e conservação. ‘‘Hoje, nós só corremos atrás depois que a demolição está feita, quando deveríamos tomar providências antes.’’
O arquiteto lembra que se o município contasse com a listagem de obras interessantes à preservação, sempre que alguém entrasse com pedido de alvará de demolição, a lista seria consultada. Se a edificação em questão constasse no documento, órgãos como a Secretaria de Cultura e Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul) poderiam ser avisados para analisar a obra e a necessidade de levantamento de dados, indicação de alternativas de preservação e até transferência da construção para outro local, como aconteceu com a Casa do Pioneiro, instalada no câmpus da Universidade de Londrina.
‘‘Atualmente, os procedimentos à demolição de uma construção não possuem instâncias de análise à qualidade arquitetônica ou importância à preservação ou não da edificação’’, diz Yamaki, lembrando ainda que não existe penalidade para os que não entram com pedido de demolição, a não ser a necessidade do documento para a averbação no cartório.
Houve uma época, segundo o arquiteto, que tudo no município, da escola à igreja, era feito de madeira. ‘‘Esta falsa imagem de que havia muita construção deste tipo fez com que grande parte deste acervo – representativo da cultura local – fosse perdido’’, diz Yamaki, lembrando que as construções em madeira são facilmente demolidas e também deterioram-se mais facilmente. Por isso, devem receber atenção especial. ‘‘Existe um sentido pejorativo nestas casas, mas é preciso lembrar que na história da civilização, há até palácios construídos em madeira.’’Ausência de uma legislação que proteja construções históricas ameaça a preservação do patrimônio cultural de Londrina
César AugustoJosoé de CarvalhoJosoé de CarvalhoPRESERVAÇÃOO arquiteto Humberto Yamaki (abaixo) sugere mecanismos para conservar construções históricas. Como a casa da Rua Bahia construída pelos mestres carpinteiros japoneses, em foto tirada no dia 26 de junho deste ano (acima) e depois de demolida (ao lado) para dar lugar a um estacionamento

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