Mãos que deveriam sustentar apenas sonhos juvenis de uma vida adulta de sucesso hoje empunham armas. Ameaçam, matam e morrem por motivos os mais fúteis. Desprestigiados pela sociedade, os adolescentes buscam no porte de revólveres e pistolas a proteção e respeito que carecem, tentando compensar as oportunidades que estão sendo negligenciadas.
Com 16 anos, Antônio (nome fictício) foi surpreendido pela polícia circulando pelo Centro de Londrina com uma pistola 765 há pouco mais de cinco meses. ''Queria respeito. Com a arma me sentia mais homem, mais poderoso'', argumenta, completando que a periferia está abandonada à própria sorte. Num dia qualquer e sem motivo aparente, após voltar do banco onde trabalhava, foi abordado por colegas do bairro onde mora, na Zona Leste, que lhe ofereceram a pistola por R$ 600,00. Com o salário mais um empréstimo bancário ele fechou negócio.
Os primeiros tiros contra placas de trânsito foram uma terapia. ''Parece que tudo que está acontecendo na vida da gente sai junto com as balas.'' Mas pouco tempo depois de ter comprado a arma ele foi apreendido pela polícia. ''Fichado'' e sem emprego, chamou a atenção de companhias suspeitas e do tráfico. ''Só não entrei de vez para o mundo do crime porque vi que isso não ia oferecer nada para eu conseguir concretizar os sonhos que tinha'', comenta. Antônio confessa que a ''vida fácil'' da criminalidade o atraía mas decidiu mudar. Voltou a estudar, entrou para um projeto social no bairro e ingressou na Escola Municipal de Teatro. ''Hoje não vivo nesse mundo do capitalismo. Aqui, lutamos por um país de igualdade'', comemora.
A fala de Antônio encaixa-se nos argumentos das assistentes sociais Jaqueline Micali e Ana Lúcia Conde, que atendem adolescentes que cumprem medidas de liberdade assistida. ''O adolescente comete os primeiros atos infracionais pela falta de oportunidades e perspectivas, falta de estrutura familiar, e principalmente pelo fato social de querer ter e não ser. Daí, passa para atos mais graves'', avaliam.
''Hoje, principalmente na periferia, não se consegue status estudando. Eles vão conseguir projeção portando uma arma ou através do tráfico'', lamentam. Para as assistentes sociais, os adolescentes envolvidos em crimes, violentos ou não, já foram vítimas no passado e acabam reproduzindo essa violência que sofreram.
A psicóloga da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Mari Nilza Ferrari de Barros é voluntária em um projeto sobre mapeamento da criminalidade juvenil no município. Ela concorda que o crescimento dos registros de porte de armas e de homicídios envolvendo adolescentes tanto como vítimas como autores é resultado das condições de vulnerabilidade social que ''a face violenta do Estado'' faz perdurar com a ausência de investimentos em comunidades carentes. ''É um conjunto de fatores que potencializam esse contexto onde a família não consegue, sozinha, superar desafios dessa monta'', avalia. Com a desvalorização do ser humano, continua, ''a vida também passa a não ter mais valor''.
Mari Nilza observa que o combate à criminalidade juvenil exige intervenções em várias frentes que devem acontecer ainda na infância, ''para desenvolver o potencial que toda criança tem direito''. Investir apenas na repressão, no entendimento da psicóloga, é atacar apenas uma parte do problema: ''temos que mudar o eixo de análise e começar a pensar em políticas públicas que efetivamente melhorem a condição de vida das pessoas''

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