Argentinos presos fazem greve de fome
Condenados a 5 anos de prisão por tráfico de maconha, três argentinos fazem pressão para serem extraditados
Paulo Pegoraro

Edson Mazzetto
Sem comerA partir da esquerda: Enrique Pinotti, Narciso Silvera e Miguel Bordon no minipresídio de CascavelTrês argentinos presos em Cascavel por tráfico de maconha estão em greve de fome, exigindo extradição para seu país, o que juridicamente não é possível pelo tipo de crime que cometeram. Eles afirmam que na Argentina teriam familiares por perto e poderiam ser beneficiados pela legislação penal daquele país, inclusive com redução de pena por bom comportamento. Os três criticam o Consulado da Argentina em Foz do Iguaçu, que não teria se interessado pela situação.
Miguel Antonio Bordon, 42 anos, Narcíso Silvera, 36, e Enrique Agostin Pinotti, 33 anos, estão no Minipresídio de Cascavel respectivamente há 3, 8 e 9 meses. Eles cumprem penas de 5 anos cada um, depois de terem sido presos pela Polícia Rodoviária Estadual, na PR-182, proximidades de Lindoeste (50 quilômetros ao sul de Cascavel), transportando respectivamente 179, 346 e 64 quilos de maconha adquirida na fronteira com o Paraguai.
Os argentinos asseguram que desde segunda-feira não ingerem alimentos, apenas água. O superintendente da 15ª Subdivisão Policial, Manoel Pedro dos Santos, disse que ‘‘ontem, com certeza, eles não comeram nada’’ e ainda não foi providenciado acompanhamento médico. O delegado-chefe da 15ª SDP, Osnildo Carneiro Leme, especula que os presos poderiam ter sido motivados a fazer greve de fome por causa do comportamento dos sequestradores canadenses e chilenos do empresário Abílio Diniz, em São Paulo.
Bordon tem um filho de 5 anos, Silvera um de 3, e a esposa de Pinotti está grávida de 5 meses. Eles não têm contato com os familiares e, como não recebem assistência consular, se dizem ‘‘abandonados’’. Eles não se queixam das condições carcerárias. ‘‘Queremos pagar nossas culpas, mas em nosso país teríamos condições muito mais adequadas para isso’’, diz Narciso Silvera. ‘‘A distância da família é muito dolorida’’, acrescenta Enrique Pinotti.
A Folha tentou várias vezes contato com o cônsul César Alsina ou um representante, mas não houve retorno às ligações gravadas pela secretária eletrônica da representação diplomática em Foz do Iguaçu. A advogada Terezinha Depubel, que diz representar Bordon ‘‘sem receber honorários’’, fez contatos com funcionários do consulado pouco depois de ele ser preso. ‘‘Disseram que legalmente nada podem fazer para interferir e que os presos devem cumprir sua pena’’.
Terezinha Depubel conta que precisou ajudar a mulher de Bordon, Mônica, que chegou a ser detida com ele (mas não teve culpa formalizada) para que voltasse a Argentina. A advogada não foi consultada pelos presos antes de deflagrar a greve e, se tivessem pedido sua opinião, ‘‘desaconselharia, pois não há sentido prático’’.
Para o crime de tráfico não há extradição. Terezinha entende que a greve de fome deflagrada pelos presos pode motivar uma discussão no âmbito do Mercosul - integrado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. ‘‘Já que estamos em tempo de globalização, poderia haver também a possibilidade de presos por crimes comuns serem recambiados para seus países, até para não ficarem gerando encargos para os outros’’, considera a advogada.

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