A ‘‘prisão voluntária’’ do argentino Daniel Cristovan Peiró, 45 anos, completou um ano no final da semana passada. Com residência fixa na Guiana Francesa, ele está em Puerto Iguazú, Argentina (fronteira com Foz do Iguaçu), tentando liberar o trailer barrado por fiscais da aduana da Ponte Tancredo Neves, que liga o Brasil ao país vizinho, por causa de irregularidades nos documentos do veículo.
Nesse período, viu a mulher e o filho, que estavam com ele quando o automóvel/casa foi retido, voltarem para casa. Agora, ao completar um ano ‘‘emperrado’’, Daniel deixa transparecer que acabou a esperança de solução no caso.
O governo colocou o trailer à venda por cerca de US$ 4 mil, mas o leilão, marcado para acontecer no último sábado, não ocorreu, segundo o chefe da aduana em Puerto Iguazú, Carlos Arribillaga. ‘‘O mecânico está livre para voltar para Guiana, mas sem o veículo.’’
Como não pode participar do arremate, Daniel prometeu abandonar o trailer e juntar-se à família novamente, separados desde dezembro de 1999.
A história começou em janeiro do ano passado, quando o argentino saiu da colônia francesa junto com a mulher, a brasileira Maria Zenaide Portela Peiró, 44 anos, e o filho Michael Eric Peiró, 5 anos, para visitar a mãe em Mendonza, capital da província honônima.
Antes de ingressar na Argentina, teve os documentos pessoais e do veículo roubados em Foz do Iguaçu, mas mesmo assim seguiu viagem.
Depois de percorrer mais de cinco mil quilômetros de distância, iniciou o caminho inverso. Porém, quando tentava passar novamente pela aduana de Puerto Iguazú, teve o trailer retido porque permaneceu na Argentina três meses a mais do que permitido pela autorização temporária.
Ele só poderia sair do país com o veículo caso pagasse uma multa, na época de US$ 18 mil.
Sem o dinheiro, o casal e o filho ficaram dois meses na aduana na esperança de obter anistia da multa. Também tentaram, sem sucesso, o perdão na Justiça.
Através de parentes e amigos, Maria Zenaide, então grávida de sete meses, e o filho de cinco anos, conseguiram uma passagem área para Santarém, Pará, onde mora a mãe da brasileira.
Daniel continuou na fronteira tentando liberar o caminhão, construído por ele, estimado em US$ 18 mil, mas com ‘‘valor sentimental’’.
‘‘Tentei contornar a situação, mas não foi possível. A Beatriz já nasceu, mas eu ainda não conheço o bebê. Ela vai fazer um ano’’, disse.
Daniel tem se mantido com o dinheiro ganho em uma oficina de motos que montou na cidade argentina. Desde então, cruza a ponte a cada duas semanas com objetivo de telefonar, de Foz, para Maria. ‘‘A tarifa é mais barata’’, explicou.
Em uma das últimas conversas, o argentino prometeu para a mulher ir ao Pará e depois seguir para o Guiana Francesa. ‘‘Vou vender tudo, voltar para minha casa e esquecer a Argentina’’, garantiu.

mockup