Osmani Costa
De Londrina
Quando os primeiros ingleses e funcionários da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP) chegaram, no final da década de 20 e início da década de 30, no planalto situado entre os rios Tibagi, Paranapanema e Ivaí, notaram imediatamente a abundância de água oferecida pelas dezenas de arroios, córregos e ribeirões.
Com o objetivo de proteger esta riqueza natural, o local definido para a instalação da sede da futura cidade foi o ‘espigão’ - pico, ponto mais alto da área -, a partir do qual nenhum ponto periférico dentro do traçado inicial atingiria qualquer nascente ou curso de água. Londrina foi projetada pela CTNP, num traçado inspirado no ‘tabuleiro de xadrez’, para receber 20.000 habitantes. O terreno ao redor dele - que hoje é o centro da cidade -, a companhia loteou e ocupou com pequenas chácaras destinadas a abastecer de alimentos a população, formando um cinturão verde.
Estas chácaras, sim, tinham acesso direto aos cursos naturais de água localizados nos fundos de vales. Mas a zona urbana de Londrina desobedeceu ao programado e teve um dos mais expressivos crescimentos populacionais do Brasil nas décadas de 40, 50 e 60. Foi quando, com quase nenhum planejamento, as chácaras e sítios da antiga zona rural começaram a ser loteadas, vendidas e ocupadas. Foi assim que, rapidamente, as primeiras áreas de fundos de vales - e consequentemente seus cursos de água - passaram a fazer parte da zona urbana londrinense.
Segundo o Instituto de Pesquisas e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul), hoje a cidade conta com 81 fundos de vales, espalhados por todas as regiões. Por eles correm dois arroios, 71 córregos e oito ribeirões; distribuídos em cinco bacias hidrográficas: do Ribeirão Jacutinga, Ribeirão Lindóia (ambos na zona norte), Ribeirão Limoeiro (leste), Ribeirão Cambé (área central) e Ribeirão Cafezal (sul); todos afluentes do Rio Tibagi.
O mais importante fundo de vale é, sem dúvida, o do Ribeirão Cambé, que possui 29 afluentes, corta todo o centro da cidade - região mais populosa -, e forma os quatro lagos Igapó e a represa do Parque Arthur Thomas. São tantos os córregos espalhados pela cidade, que 22 deles ainda não têm nome oficial. E dois têm o mesmo nome: Esperança. Um na zona leste, afluente do Ribeirão Água das Pedras, e um na zona sul, afluente do Ribeirão Cafezal, que serve para captação de água pela Sanepar para abastecimento de parte de Londrina.
‘‘Os fundos de vales são uma bênção, uma dádiva da mãe natureza para Londrina’’, avalia a promotora especial do Meio Ambiente, Maria Lúcia Reichenbach. As autoridades do setor e especialistas em ecologia são unânimes em dizer que a cidade conta com uma das topografias mais propícias do País. ‘‘Esta quantidade de fundos de vales é um privilégio inestimável. Eles contribuem em muito para o equilíbrio do ecossistema, além de servirem como locais de drenagem para as águas das chuvas, evitando as enchentes comuns em cidades brasileiras de médio e grande portes’’, comenta a bióloga e professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Lygia Pupatto.
Todos os fundos de vales - aqui compreendidos como a parte mais baixa das formas topográficas que servem de corredores naturais para as águas - são áreas de preservação permanente estabelecidas pela legislação federal, estadual e municipal. Dos 81 existentes na cidade, apenas 12 são abertos a visitação e somente quatro estão urbanizados com equipamentos para serem utilizados como área de lazer pela população: o do Ribeirão Cambé - nos lagos Igapó e no Parque Arthur Thomas -, o do Córrego Rubi (zona oeste), o do Córrego Água Fresca e Córrego do Leme (Zerão), ambos na área central.
Mas o problema não pára na falta de infra-estrutura para que a população desfrute dos benefícios que cada fundo de vale pode oferecer. O pior é que nem o mínimo previsto em leis - completa preservação de pelo menos 30 metros ao lado de cada margem dos cursos de água - tem sido respeitado na quase totalidade dos fundos de vales londrinenses.
Segundo levantamento da geógrafa da Autarquia Municipal do Ambiente (AMA), Marcia Regina Arantes, a maioria deles tem sofrido constante degradação em consequência da poluição industrial e domiciliar; do tratamento de esgoto deficiente; do desmatamento e ausência de mata ciliar; da ocupação irregular na faixa mínima de proteção; e do processo de erosão seguido de assoreamento.
‘‘Estas áreas são fundamentais para o escoamento das águas e para a qualidade de vida da população, porque formam o pulmão verde da cidade. Elas servem para harmonizar o desenvolvimento urbano com o ambiente, e por isto são elementos naturais a serem preservados a qualquer custo, com a menor interferência possível’’, ressalta o engenheiro e presidente do Ippul, Mário Stamm Júnior. ‘‘Os fundos de vales devem servir, ainda, como um espaço privilegiado de lazer e prática de esportes pela população. Para isto, eles precisam ser dotados de equipamentos que não agridam a natureza. O difícil para o município tem sido conseguir os recursos necessários para a recuperação, manutenção, fiscalização e montagem da infra-estrutura nestas áreas’’.

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