‘Áreas do governo assentariam
todos os sem-terra de verdade’
Josoé de CarvalhoFrancisco Galli: ‘‘Se uma indústria estiver improdutiva, o governo tem direito de desapropriá-la?Ruth Meira
Para o presidente da Sociedade Rural do Paraná, Francisco Galli, 52 anos, que produz cana, café, soja e explora a pecuária em uma propriedade em Catanduvas, Oeste do Paraná (a 50 quilômetros de Cascavel), o movimento dos sem-terra no Brasil nada tem de revolucionário. É anárquico, usa a ignorância e miséria de famílias realmente com vocação rural para fins políticos e prospera graças à omissão do governo que, a seu ver, não cumpre a função de reprimir as invasões de terras e garantir o direito à propriedade. Uma reforma agrária ‘‘à brasileira’’, para ele, seria simples e eficiente: ‘‘Basta um cadastramento honesto das famílias verdadeiramente sem-terra, que não são muitas, e a destinação, para elas, das terras ociosas do governo’’. Confira a entrevista do líder dos produtores rurais que representa, no Estado, 1.058 donos de terras:
Folha - Qual a sua avaliação sobre o Movimento Sem-Terra e o modelo de reforma agrária em curso no País?
Galli - O MST é cópia de um modelo que fracassou no mundo todo. Nos países socialistas, levou a economia à bancarrota. No México, o projeto de reforma agrária foi um desastre completo. No aspecto jurídico, nem dá para falar. É uma aberração, um desrespeito à lei e à ordem. As ocupações de terra, na verdade invasões, são feitas ao arrepio da lei. Não é possível ver essa iniciativa como um movimento espontâneo de agricultores, mas como uma estrutura muito bem organizada que não tem como objetivo dar terra a produtores sem trabalho.
Folha - Qual é o objetivo do MST, então?
Galli - É uma boa pergunta. Qual é? Talvez a tomada do poder, não através dos caminhos políticos, democraticamente. Mas através da anarquia, das ações de guerrilha, do movimento armado. E que contam com apoio financeiro de outros países.
Folha - O senhor considera legítima a luta das famílias que chama de ‘‘verdadeiramente sem-terra’’?
Galli - Não. Com a globalização, é um absurdo achar que alguém possa ter lucro sem produzir em larga escala. Com a agricultura tão sobretaxada como é no Brasil, não há a menor hipótese de se conseguir produtividade e rentabilidade sem escala. O problema do Brasil não é terra, é recurso para explorar a terra.
Folha - Qual seria, então, a solução para quem tem vocação rural e está sem oportunidade de trabalho?
Galli - É simples. Basta que o governo faça um cadastramento verdadeiro da população sem-terra do País, que não sei precisar qual é, mas garanto ser bem menor do que essa que o MST propaga, para depois destinar a essas famílias realmente vocacionadas para o meio rural as suas próprias terras ociosas. Posso assegurar que só as áreas da União seriam suficientes para atender a esse contingente. Mas o MST recusa o cadastramento porque quer ter o poder de manobrar os nomes dos beneficiários de acordo com os seus interesses. Foi buscar os brasiguaios (brasileiros que vivem e trabalham no Paraguai) para engrossar a lista de sem-terra no Brasil. Por quê? Já acabaram os sem-terra daqui? Ou porque eles não querem, na verdade, que o problema seja resolvido?
Folha - Por que a municipalização da reforma agrária seria, na avaliação dos produtores, mais eficaz?
Galli - Porque evitaria justamente infiltrações de gente que nada tem a ver com a terra na lista de beneficiados. Mas o MST rejeita de todas as formas essa idéia. Por quê? Porque o objetivo não é assentar famílias. O Banco da Terra, outra proposta oficial que julgamos interessante, é a mesma coisa. Seria uma forma de o governo atender diretamente o novo colono, sem passar pela intermediação do MST. A terra não seria doada, mas vendida ao produtor para ser paga a longo prazo. O MST também não quer.
Folha - Como acha que o governo deveria agir em relação às ocupações de terras?
Galli - Estritamente dentro do que a lei determina, sem hesitação. Como não faz isso, acaba estimulando uma invasão após a outra, não só de fazendas mas também de prédios públicos, áreas urbanas. Não há freio. E nós vamos desacreditando do poder de coação, de repressão, do governo. A sociedade brasileira não apóia movimentos como o do sem-terra. No nosso País, ainda em formação, todo mundo tem ambições, seja de possuir terra ou casa própria. E este tipo de iniciativa causa uma insegurança coletiva.
Folha - Como o senhor avalia as ações muitas vezes violentas da polícia na desocupação de áreas?
Galli - E a ocupação, não é violenta? Hoje não há mais mentira, a televisão mostra tudo. No chamado ‘‘massacre de Carajás’’ o que se viu foi a polícia fugindo de gente armada com foice. Quem conhece bem o poder de uma foice bem afiada sabe que qualquer um fugiria numa situação assim. E a violência sobre o dono da terra, que fica impedido de entrar e sair de sua propriedade? Quem decidiu cometer um ato assim, deve saber que vai haver uma reação em sentido contrário. Está consciente dos riscos que corre. É como um bandido que assalta um banco e que tem que ser exterminado. A polícia tem que cumprir o seu papel.
Folha - O que acha do conceito de propriedade produtiva usado pelo Incra para as desapropriações?
Galli - Primeiro, o que causa estranheza, é o sem-terra brigar para entrar na propriedade de alguém, quando deveria desbravar novos lugares. Isso diferencia o vocacionado do aproveitador. Quanto à terra produtiva, acho um absurdo colocar as coisas nesses termos. No sistema capitalista, se uma propriedade não for produtiva, quebra. É assim com uma indústria, com uma loja. Ninguém tem o direito de ir falar para o proprietário o que ele tem que fazer. Então, se uma indústria estiver improdutiva, o governo pode desapropriá-la para entregar para outro? Como alguém pode vir exigir produtividade de um único setor? As montadoras estão demitindo. São produtivas? Nós vamos desapropriá-las também? E o que fazer então sobre a produtividade do governo? O setor agropecuário não é diferente de nenhum outro. Também incide sobre a nossa produção uma carga tributária altíssima, da ordem de 40%, e ninguém tem o direito de vir cobrar produtividade só de nós, produtores rurais. É uma piada.
Folha - Mas o governo paga pelas terras que desapropria na moeda dos Títulos de Dívida Agrária, certo?
Galli - E quem quer receber em 20 anos? Por acaso, o proprietário de terra, quando comprou a propriedade, pagou em 20 anos? Se o governo pagasse de forma justa, não haveria problema nenhum.

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