Áreas de preservação viram depósitos de lixo
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 02 de outubro de 2000
Érika Pelegrino De Londrina 
Sem saber que destino dar ao lixo que produz, Londrina está se transformando em uma lixeira a céu aberto. Fundos de vale, terrenos baldios e até rios estão substituindo um sistema municipal precário de coleta e destino de todo tipo de resíduo. Segundo dados da Autarquia Municipal do Ambiente (AMA), dos 84 fundos de vale, 70% estão servindo de depósito de lixo.
O sistema municipal de coleta e destino do lixo é composto pelo Lixão, que até há pouco tempo recebia todo tipo de resíduo desde orgânico até lixo hospitalar e industrial; Central de Moagem, para onde devem ser levados entulhos da construção civil; Central de Galhos, para resíduos de podas de árvores; Coleta Seletiva.
O Lixão, na Estrada do Limoeiro, zona leste, depois de 33 anos, está com sua vida útil esgotada. A previsão é de apenas mais um ano de uso (ver texto nesta página). A coleta seletiva está implantada em apenas 10% da malha urbana (área central e cinco bairros da zona sul). Segundo a diretora ténica da AMA, Silvia Saadjiam, a falta de recursos tem inviabilizado este projeto.
Para funcionar em toda a cidade, segundo ela, seria necessária a aquisição de pelo menos mais quatro caminhões. Atualmente apenas um faz o trabalho. A falta de verba também é responsável pelo engavetamento de projetos voltados para uma campanha educacional de seleção de lixo reciclável doméstico, mais ostensiva. A Central de Moagem e a Central de Galhos voltaram a funcionar com suas máquinas há apenas alguns dias. Com o triturador parado há cinco anos, o entulho de construção estava sendo depositado em seu estado bruto. A diretora técnica da AMA afirma que a máquina ainda precisa de alguns ajustes para funcionar com 100% de sua capacidade.
A Central de Galhos estava com suas cepilhadeiras máquinas que trituram resíduos de podas de árvore também paradas por falta de peças para conserto. Com isto, todo este material estava sendo queimado a céu aberto.
Com a intervenção da Promotoria do Meio Ambiente exigindo que o poder público desative o Lixão e faça um aterro sanitário em uma nova área, obedecendo normas de preservação do ambiente, a AMA decidiu fiscalizar o despejo de lixo irregular, enquanto não providencia o local adequado.
A AMA determinou que cada tipo de lixo deve ser encaminhado para o local correto, mediante pena de pagamento de multas previstas pela lei de crime ambiental que podem chegar até a R$ 50 milhões.
Claudio Mendes, gerente de uma empresa de locação de caçambas, diz que estas determinações estão fazendo com que o lixo seja depositado em qualquer local. Segundo ele, as caçambas que normalmente estão carregadas com entulhos de construção misturados a outros tipo de lixo não são aceitas nem na Central de Moagem, nem no Lixão.
Na Central de Moagem só aceitam entulho de construção, no Lixão não aceitam resíduo sólido. Em algum lugar este lixo tem que ser despejado, diz. A caçamba fica na rua, inevitavelmente outras pessoas irão jogar qualquer tipo de lixo lá. A empresa não tem como separar este lixo. O poder público é que tem fazer isto.
A moradora do Jardim Santiago 2, Meury Rosner, 21 anos, dois filhos, diz que o fundo de vale próximo de sua casa está se transformando em um verdadeiro aterro. A maioria do lixo encontrado lá é de construção. Já vimos várias empresas despejando lixo aqui, diz.
Mendes afirma que sua empresa não tem esta prática, mas admite que diante da atual situação, é possível que isto tenha acontecido. As empresas de autofossa enfrentam o mesmo problema. Renério Moura de Campos, sócio-proprietário de uma desentupidora, reclama que não há lugar para depositar o lixo de fossas que não estejam com Ph entre 6,5 e 7,5, e os resíduos de gordura de restaurantes, fábricas de doces, indústrias de alimentos e de indústrias têxteis.
Antes ia tudo para o Lixão. Agora não pode mais, afirma. O resíduo de fossa deve ir para a estação de tratamento de esgoto da Sanepar, mas só se estiver com Ph entre 6,5 e 7,5 e os outros resíduos de gordura e de indústria têxtil não temos onde jogar, diz. Ele afirma que sua empresa não deposita este lixo em rios nem em fundos de vale, mas diz não saber o que as concorrentes fazem.
Nós paramos de trabalhar com este material, mas a cidade não parou. O que significa que tem gente coletando este lixo e em algum lugar está jogando, afirma.


