Desde a madrugada do dia 1º de abril, 29 famílias sem-teto ocupam uma área pública no Jardim Maracanã (Zona Oeste de Londrina), onde deveria existir uma praça. Cansados de observarem o mato crescendo no terreno de 5,8 mil metros quadrados e de verem se multiplicar a cada dia os perigos gerados pelo abandono, eles decidiram erguer barracos de lona para garantirem suas moradias. O presidente da Companhia de Habitação de Londrina (Cohab), Carlos Eduardo Afonseca, alertou que a invasão pode inviabilizar o registro das escrituras de posse aos mais de mil moradores do bairro.
Entre os sem-teto que integram a invasão, o clima é de esperança. Eles lembraram ontem que a ação é pacífica mas anteciparam que não vão deixar o terreno nem aceitam transferência para outra região. As famílias são contrárias à construção de uma praça na área e argumentam que a divisão em lotes é a destinação mais honrosa já que, por causa do abandono de anos, o mato tomou conta e o local vinha sendo ocupado por marginais. ''Depois que escurece, essa rua fica abandonada porque ninguém mais tem coragem de passar'', apontou uma mulher que participa da ocupação. ''Toda vizinhança não quer a praça, que só ia ser usada mesmo para coisa errada. Ainda mais sendo vizinha de uma escola. Essa área é muito mais útil se for usada para moradia'', disse outra mulher. As famílias que estão no terreno pertencente à Prefeitura já conseguiram o apoio em um abaixo-assinado de mais de 100 moradores que vivem nos jardins Maracanã e João Turquino.
Segundo as famílias, os ocupantes do terreno são filhos de moradores que residem no Jardim Maracanã há pelo menos 10 anos mas que continuam sem acesso à casa própria e vivem provisoriamente abrigados em imóveis de parentes. ''São pessoas que não têm condições de pagar aluguel'', reforçou o motorista Adilson de Souza, 34 anos, que ergueu um barraco de lona no terreno invadido com a expectativa de que finalmente consiga deixar de depender do cunhado, que lhe cedeu um pequeno cômodo numa casa onde moram oito pessoas. ''Estamos pedindo uma chance, que alguém olhe para nós'', resumiu.
Analfabeta, com problemas de saúde que a impedem de trabalhar e sem conseguir a aposentadoria, Lucinda dos Santos Amâncio, 59 anos, sobrevive com a ajuda de programas sociais que não somam mais do que R$ 70,00 mensais. Mesmo com dificuldades, ela decidiu engrossar a ação de ocupação e com a ajuda de outros moradores ergueu um barraco de lona onde passa os dias desde o último final de semana. ''É muito difícil mas a gente precisa'', justificou.
O Jardim Maracanã, que também nasceu de uma ocupação irregular, foi urbanizado recentemente com recursos federais e municipais. Por isso, a invasão representa um risco para os mais de mil e cem moradores do bairro. O presidente da Cohab, Carlos Eduardo de Afonseca e Silva, convocou uma reunião ontem à noite com a diretoria para discutir o assunto. De acordo com ele, o risco maior é que as famílias já beneficiadas com moradias não consigam registrar as escrituras dos imóveis porque os recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) estão vinculados ao ''congelamento da área'', ou seja, o bairro está impedido de receber mais famílias. ''Com a invasão tudo volta a estaca zero'', apontou Afonseca. A Cohab encaminhou relatório sobre o problema à Procuradoria Jurídica do Município que ainda esta semana deverá pedir na Justiça a reintegração de posse da área.

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