A floresta de araucária, símbolo do Paraná, está em perigo. Pesquisadores dizem que o corte indiscriminado da árvore, que eliminou os melhores exemplares da espécie no Estado, pode ter determinado sua extinção genética. O risco pode ser constatado pela estatística negativa que mostra a degradação das áreas com araucária. Originariamente a árvore ocupava 40% da superfície do Paraná, se estendendo por 73.780 quilômetros quadrados. Hoje está restrita a apenas 2.696 quilômetros quadrados, o que corresponde a 1,4% da área antes ocupada.
Mas, mesmo com sua pequena ocorrência, ainda assim, dispersas, as araucárias exercem função importante no meio onde podem ser encontradas. Pensando nisso, organismos governamentais e não governamentais trabalham para garantir a conservação da espécie. A Embrapa Florestas, no município de Colombo, Região Metropolitana de Curitiba, é uma dessas entidades. Para a recuperação dos remanescentes das florestas, ela tem aprovado um projeto, que ainda depende de verbas para ser aplicado.
De acordo com o pesquisador Jarbas Shimizu, o trabalho pretende identificar os fatores que dificultam a regeneração, estimular e ampliar os fragmentos existentes. Shimizu discorda da possibilidade de extinção genética das araucárias. ‘‘O patrimônio genético permanece. É preciso estimulá-lo para novas recombinações’’, contra-argumenta.
Ocorrência - Espécie imponente, de aparência única e inconfundível, a araucária predominava nas paisagens do Sul do Brasil. Sua região de maior ocorrência é o Planalto Meridional Brasileiro. Em Santa Catarina ocupou 30% e no Rio Grande do Sul, 25%. Também ocorre no Sudeste brasileiro, tendo chegado a ocupar 3% do território de São Paulo, 1% no Rio de Janeiro e também 1% em Minas Gerais. Mas há cerca de 200 milhões de anos, no período Carbonífero, podia ser encontrada até no estado do Piauí. Por isso, é considerada espécie fóssil.
De acordo com o pesquisador Sérgio Ahrens, da Embrapa Florestas, os bancos de sementes das florestas de araucária são objetos de pesquisa. ‘‘Hoje a preocupação ambientalista leva em consideração a biodiversidade e não somente o abastecimento do parque industrial’’, esclarece. A Embrapa não tem disponível um mapa de ocorrência de araucária no Estado.
Históricamente o corte da araucária se fazia com as melhores árvores, por isso a extinção genética da espécie, segundo o engenheiro florestal do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), Jeferson Luiz Gonçalvez Wendling. Mas os reflorestamentos com pinus substituíram economicamente a araucária, auxiliando na sua preservação. A informação do engenheiro é de que o desmatamento, nos últimos 20 anos, se deu num processo muito rápido. ‘‘Não há como recuperar as florestas com araucária. O que fazemos é fiscalizar os parques nacionais. O processo de pesquisas é muito lento e demanda tempo’’, reconhece.
Faxinais - Um outro projeto, ainda do IAP, tem também a araucária como um dos elementos de estudo. As comunidades do Paraná que têm como tradição a criação coletiva - o sistema de faxinais - estão sendo estudados para possibilitar um processo de conservação desse modo de vida.
Segundo o pesquisador Wilson Loureiro, a importância da araucária para essas comunidades de imigrantes poloneses, ucranianos e italianos, que vivem no centro-sul do Estado, está no que se refere à tradição de conservação. ‘‘Muitas vezes levamos anos procurando uma solução para os problemas quando ela pode estar bem abaixo do nosso nariz’’, diz.
O sistema faxinal caracteriza-se pela produção camponesa de caráter tradicional, com o uso coletivo da terra para a produção animal à solta, associada à conservação ambiental; pela agricultura de subsistência e venda do excedente e pelo extrativismo florestal de baixo impacto, como o corte de lenha e de erva-mate, por exemplo.
Essas comunidades, segundo Loureiro, articulam bem a criação animal com a exploração florestal. ‘‘Nossos estudos têm como objetivo reconhecer a existência dessas comunidades, entender o processo e criar condições para que se organizem’’, esclarece.
Loureiro afirma que há cerca de dez anos pesquisadores alertam para a necessidade de buscar mecanismos que ajudem esses grupos. ‘‘Há dois anos o governo do Estado baixou um decreto para que isso seja feito. Mas há pressões contra, por exemplo, de gente que gostaria de comprar barato essas terras’’, alerta.

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