Mapeamento feito pela Fundação de Pesquisas Florestais do Paraná (Fupef), da Universidade Federal do Paraná (UFPR), revela que a área de florestas de araucária em seu estado original é ainda menor do que se estimava. Levantamento divulgado ontem mostra que só 0,8% das florestas existentes no Paraná resistiram à devastação e não 1% como acreditava-se até então.
‘‘Trabalhos anteriores já mostraram essa involução do pinheiro no Paraná e essa é mais uma repetição de uma autópsia, que mostra que o morto está cada vez maior’’, afirmou José Álvaro da Silva Carneiro, da Liga Ambiental, entidade de defesa do meio ambiente. Para ele, a situação é ainda mais crítica se considerarmos que apesar da araucária ser a espécie mais ameaçada de extinção em toda a América do Sul, apenas 0,08% das espécies no Estado estão realmente protegidas em Unidades de Conservação Direta do Estado.
O engenheiro agrônomo Paulo Roberto Castella, coordenador geral do projeto, não vê o quadro de forma tão negativa. ‘‘A situação é melhor do que eu esperava. Apesar de ter apenas 0,8% do que chamamos de florestas em estágio avançado, temos 14% em estágio médio. Isso significa que, com uma política de conservação, estas áreas poderão chegar a um estágio avançado’’. Para isso, ele calcula que seriam necessários pelo menos 20 anos de ação da natureza, associada a uma política pública de destinação de recursos financeiros e humanos, equipamentos e fiscalização.
‘‘Do que antes era uma floresta contínua, apenas interrompida por campos naturais, atualmente encontra-se bastante fragmentada nos três planaltos da região meridional do Estado’’, diz o biólogo Ricardo Miranda de Britez, um dos responsáveis pelo mapeamento da vegetação. O atual estágio de degradação do bioma, segundo ele, é resultado de um processo histórico de ocupação de terras e incentivo ao desmatamento para expansão da fronteira agrícola, além de aspectos culturais. Assim, os poucos remanescentes das araucárias estão em franco processo de desaparecimento e o que resta encontra-se fragmentado.
‘‘Esse processo propicia além da perda de habitat o isolamento das populações, causando uma redução da diversidade biológica e um empobrecimento genético. A situação se agrava devido a falta de áreas protegidas de uso direto e indireto na região de ocorência do bioma’’, conclui a pesquisa. A região Centro-Sul do Estado, nas cidades de Palmas, Guarapuava, Turvo e União da Vitória, apresenta a maior quantidade de remanescentes e também as maiores áreas contíguas. Em muitas áreas a cobertura florestal é quase inexistente, com pequenos fragmentos bastante degradados.
A diretora de Biodiversidade e Áreas Protegidas do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), Mariese Muchailh, confirma que apenas 0,08% das florestas de araucária, também chamadas de Floresta Ombrófila Mista, estão em áreas de conservação direta, e 2,5% estão em Unidades de Conservação não públicas. Na próxima semana, segundo ela, o IAP divulgará a criação de mais duas Unidades de Conservação dentro do bioma das araucárias: nos municípios de Fernandes Pinheiro e Reserva do Iguaçu, ambos na região Centro-Sul, que possuem florestas de araucária em estágios avançado e médio de sucessão.
Durante a apresentação da pesquisa, o secretário estadual do Meio Ambiente, José Andreguetto, garantiu que o Estado irá trabalhar junto às Organizações Não-Governamentais (ONGs) para a preservação da espécie. ‘‘Os números mostram que temos que nos unir e tomar ações imediatas’’, disse, lembrando que um passo importante será conseguir a aprovação do projeto do deputado Neivo Beraldin, em tramitação na Assembléia Legislativa. O projeto prevê a proibição do corte de araucárias por um período de dez anos.
As principais ameaças, segundo Castella, são a extração seletiva da madeira, que acaba com a biodiversidade, o fogo causado principalmente pelo manejo de áreas de agricultura, a exploração agropecuária, o crescimento das áreas urbanas, os reflorestamentose e ainda as invasões de terras.

mockup