Árabes decidem voltar para o Oriente
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sábado, 06 de setembro de 1997
Antônio França Foz do Iguaçu 
Ney de SouzaAlcorãoEntre as tradições mantidas pela colônia árabe, nada é mais forte do que a religiosidade; a mesquita é frequentada pelas comunidades sunita e xiíta Os sucessivos acordos de paz firmados em países do Oriente Médio estão diminuindo o número de árabes em Foz do Iguaçu, que até o ano retrasado abrigava a segunda maior comunidade daqueles países na América do Sul. Ao contrário dos anos 80, quando milhares de imigrantes desembaracaram na fronteira, os árabes estão fazendo a rota inversa. Mesmo assim, Foz do Iguaçu ainda abriga mais de 5 mil árabes e descendentes.
Horrorizados com a guerra, os primeiros imigrantes do Oriente Médio chegaram a Foz do Iguaçu no início da década de 50 e logo em seguida mandaram buscar os parentes. Primeiro vinham os irmãos para ajudar nos negócios, depois as esposas e os filhos. Quando a vida melhorava, traziam os pais. Essa regra, segundo o Centro Cultural Beneficiente Islâmico de Foz do Iguaçu, era seguida à risca.
Quando chegaram, eles resistiram à miscigenação e se agruparam em comunidades para preservar suas culturas e costumes. Muitos deles, até hoje, falam o português com dificuldade. Porém, os que se integraram à cultura brasileira, perderam sotaques e se casaram com brasileiros. Muitas mulheres, acostumadas a usar o xador (roupa usada pelas muçulmanas que cobrem quase todo o corpo, deixando apenas o rosto de fora), trocaram as vestimentas por trajes apropriados ao clima tropical.
Segundo um levantamento do Centro Cultural, a maioria dos imigrantes árabes da fronteira veio do Líbano, um país com pouco mais de 10 mil quilômetros quadrados e três milhões de habitantes. Cerca de 80% dos árabes de Foz do Iguaçu vieram do Líbano, 15% da Palestina, 5% da Síria, Egito e outros países.
Muitos desses imigrantes fizeram fama e fortuna, representando quase 60% do giro comercial de Foz do Iguaçu e 40% de Ciudad del Este, município paraguaio na fronteira com o Brasil, onde parte da comunidade mantém negócios. Aqui, é dificil sentir saudades do Líbano, diz o comerciante Rimon Sleiman.
No centro de Foz do Iguaçu há lojas com letreiros árabes e outras especializadas em vender produtos típicos. Todas as coisas e comidas que costumávamos consumir no Líbano, nós encontramos em Foz do Iguaçu, afirma Sleiman. Todos, sem excessão, frequentam os bailes, almoços e festas do Centro Cultural, onde dançam o dabke (uma dança tradicional) e comem kibe, tabule, charuto e kafta.
Mesmo assim, muitos estão voltando aos seus países. A guerra entre Israel e o Líbano está acabando e há tratados de paz. Isso fez com que muitos patrícios voltassem para a terra natal, diz o secretário do Centro Cultural Beneficiente Árabe-Islâmico, Kamal Osman, natural de Balul, um pequeno povoado do Líbano, e que chegou a Foz do Iguaçu no ano de 1962.
Os árabes que vivem em Foz do Iguaçu permanecem quase que isolados. Se os povos que migrarem para outros países não preservarem as suas culturas e tradições, eles se diluem. O isolamente é natural, afirma Osman.
Ele diz que esse isolamento não é uma regra e destaca que os árabes foram os que mais se abriram à miscigenação e permitiram o casamento entre pessoas de outras nacionalidades. A mulher de Osman, Fátima Massay Osman, é uma brasileira com descendência árabe e japonesesa.
Em Foz, 95% dos árabes seguem o islamismo. Destes, 40% são sunitas e 55% são xiítas. Há, ainda, 4% de drusos e 1% de cristãos.
Religião Entre as tradições, nada é tão forte quanto a religião. Em duas mesquitas, divididas entre os xiítas e sunitas, os árabes se reúnem para praticar o assalet (ritual de adoração a Deus).
Os muçulmanos participam anualmente de festas religiosas como o desjejum de Ramadam, quando comemoram o fim do jejum de 30 dias, entre os meses de janeiro e fevereiro. Durante o jejum, os árabes muçulmanos não bebem água, não comem e não praticam sexo até o sol se por. A Festa do Sacrifício, quando eles lembram a peregrinação à Meca é outro exemplo de religiosidade.
Para Osman, por mais que os costumes brasileirs interfiram, é quase impossível influenciar na religão da maioria dos árabes. Eles acreditam que há uma profunda e preocupante ignorância que separa árabes muçulmanos e brasileiros cristãos. Um dos exemplos é que o árabe não gosta da comparação entre o Alcorão e a Bíblia cristã. A Bíblia é o livro sagrado dos cristãos, assim como o Alcorão é para os muçulmanos, explica Osman.
Os seguidores do profeta Mohamad (Maomé) acreditam que sua religião é mais completa. Segundo o sheik Mohamoud Badran, líder religioso da comunidade árabe local, entre os preceitos muçulmanos estão os direitos a vida, ao trabalho e ao companheirismo. Segundo ele, o muçulmano deve ter fé em todos os mensageiros que precederam o profeta Mohamad.


